Apesar de toda a falta de necessidade é de Joyce que lembro quando penso no escrever. Ao tomar conhecimento dessa data chamada de Bloomsday fiquei encantado a ponto de escrever um poema. Porque intimamente há muito de Ulisses em mim. Esse poema saiu daqui para ir a um livro que ainda não publiquei, um pouco [...]
Posts Tagged ‘poesia’
Yo-Yo Ma e meu vazio
herdo geneticamente o vazio.
o vazio me tem em gênese.
não sabia do vazio que tenho.
mas lembrei do vazio que sou.
não tenho um vazio espontâneo. tenho um vazio em arco.
um Yo-Yo me lembra deste vazio plano.
ai Yo-Yo que me joga no vazio da memória.
ai Yo-Yo. ai Yo-Yo.
herdo uma surpresa adulterina.
ai Yo-Yo. herdo um revólver ensandecido.
herdo um gatilho [...]
poema de amor à marca
pode-se pensar que existe algo que não seja escritura. mas isso seria dizer que existe algo que não é imagem. então tento dizer para os sem imagens que tudo o que existe é traço sobre traço e sobre traço. sobreposição de traços. estes traços são traços imagens. estas imagens são escritura. então tento dizer para [...]
verso à nóvoa
os outros me infernam.
inverno por inverno.
outon’almas (des)apareço. des(apareço).
de repente
não tenho nada. estou de repente.
certo que da cor não há mais que corte.
parece que só o de repente importa.
então, que importe.
porque de resto. de repente. apenas me importa o repente.
ou não me importa nada. ou me perca a letra.
de_repente_fica_a_ponte_e_morte.
diálogos dos mortos
diálogos dos mortos
estou tão cansado.
cansado de quê?
da vida.
e como cansado da vida?
de viver.
e por que não morre?
porque não posso.
mas por que não?
porque não terminei.
de quê?
de viver.
e quando termina?
não sei. termina quando termina.
mas quando termina?
quando essa voz na minha cabeça se calar.
mas que voz?
você.
quer que eu me cale?
ainda não. ainda não terminei.
ele que olha o abismo do branco
ele que olha o abismo do branco.
tem uma cabeça em chamas.
mas por que chama o abismo de branco?
porque tudo o que não é letra é abismo.
duplicidades
duplicidades
para Guga Alayon e Lorena
para todas as coisas
que sigo: desperto.
para todas as coisas,
desperto, não ligo.
objetos, assim, tão
preferidos, mendigo.
***
grito de longe, ai que grito,
grito de perto, ai que grito.
mas se escuta de longe?
mas se escuta de perto?
pois bem, que me deixe dormir.
de longe. de perto. chamado e dormido.
***
há pessoas que sigo e não me seguem.
há pessoas [...]
por medo de morrer de casa
dos que me servem chá. dos que me servem café. eu lingüinha
um pouco da xÃcara. mas que nojeira. mas não queimo
a lÃngua. se. nas garras da coruja voou meu olho.
talvez não possa dizer que seja cego de um olho.
mas que tenho um olho voado. e esse olho que resta.
que não voa. talvez seja um [...]
não há nada no mundo que não seja tela
da nudez que somos capazes de ver é guardado apenas um pequeno
trapo de limpar a tinta pelos lados. resta sempre um corpo nu. bastante nu.
e nunca é o bastante para toda tinta de que se é capaz de lambuzar
um corpo nu. e se a nudez pode estar na parede. ou no chão.
aplicam-se dentadas bem sofridas. [...]
Saudades de Piaf: Sentimento apavorado
Sentimento apavorado
I
A melodia triste ao fundo
entoa o canto do bom piano nostálgico.
Um velho instrumento.
Com o entoar da bela moça:
faz-se vivo
em sua voz.
Sempre que dizes que o amor é algo,
vejo tristeza, não uma tristeza feia;
mas sim o gosto de lembrar dos tempos
de poucos anos.
Tu que és de todos nós, que um dia,
ao soprar do vento na [...]
remnants of sun
remnants of sun
i
como imãs retorcidos as pessoas que sofrem
se procuram para zombar dos sorrisos. eu mesmo.
que não sou tão infeliz. procuro no retorcimento a atração
de boas conversas choradeiras de pitangueiras cotoveleiras.
como plantas de ferrugem. aqueles que tem dor. trocam.
olhares. em todo o lugar. não importa o desterro. a presença
ou ausência de lágrimas. pessoas que sofrem [...]
alguns escrevem para
alguns escrevem para
passar o tempo.
outros escrevem para
passar a vida.
muitos escrevem para
passar a ferro.
os passam o tempo: são frÃvolos.
os passam a ferro: são engomados.
os passam a vida: que.
os passam a vida: que.
os passam a vida: que.
merecem.
deixar a vida passar.
para ti fiz um piropoema
para ti fiz um piropoema
cujo requisito é ser lido
com querosene. de lÃngua
fendida. dobrada. em gotÃculas.
distantes. porque senão o
poema queima. porque senão
o poema queima. a lÃngua.
um piropoema não é cafezinho.
não dá para fazer lingüinha.
lambeção de xÃcara. não pode.
ou o piropoema é cuspido.
ou o piropoema é cuspido.


