Manuel Caeiro: os objetos pictóricos
(em razão da inauguração da exposição portuguesa, publico novamente esta crÃtica)
Desde que o arguto Descartes descobriu a consciência, tornou-se uma atividade intelectual bastante comum encontrar formas geométricas na experiência. No sentido de encontrar a verdade por trás da sensibilidade. Atividade essa passÃvel de ser descrita pela colonização da sensibilidade pelo claro e distinto. Por certo, antes de Descartes os gregos encontravam formas geométricas em sobreposições de acidentes, mas as formas, para os gregos, eram a verdade dos acidentes, e no caso de Descartes, o vislumbramento das formas era a opção por uma modalidade de mundo capaz de fazer obsoleta outra possibilidades: com Descartes terÃamos um mundo de imagens, mas dificilmente um mundo de imagens pictóricas. A opção pelo claro e distinto tornara obsoleta a opção pelo escuro, acidental e confuso.
Mas pode ser que Descartes não esteja certo. E se ao invés de colonizarmos a sensibilidade com formas, não formos, justamente, antes compostos pelas formas da sensibilidade? Se essa hipótese não cartesiana estiver correta, então, precisamos que Manuel Caeiro nos mostre o que fazer, e o que ver.
Caeiro, artista português, na série DownTown, mostra-nos um mundo abstrato-concreto, no qual sentimos na pele a não existência das formas. Aparentemente temos construções de madeira para auxiliar obras, parece que estamos num parque de obras, repletas de grafias acidentais, restos de tinta, marcas; ao que Caeiro nos inverte: são formas plenamente concretas, porque não podem ser vistas ou tocadas. Apenas no plano pictórico existe concretude, e Caeiro nos ensina que antes de qualquer coisa, o mundo é a coleção de objetos pictóricos plenos de existência, porque não existem.
* De sábado, 16 de janeiro,
a domingo, 28 de março.
Local: Centro Cultural Vila Flor – Palácio Vila Flor
Guimarães, Portugal









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