Da Pedra de Gelo: ou educação pela pedra
- Margarida diz, e de modo pouco anatômico deixa uma das mãos na parte de trás da cabeça enrolando os cabelos no indicador da mão esquerda e com a mão direita acariciando a própria perna, ela está com uma camisa masculina, dela, e de calcinha branca, ela está sentada numa cadeira:
Eu acho asqueroso que os homens precisam encarnar personagens femininos para escrever sobre as próprias dores. Ainda acho vergonhoso que se obtenha algum tipo de reconhecimento com isso, como se houvesse algum tipo de mérito em saber escrever como uma mulher sente, ou em saber escrever como mulher “de dentro”. Considero bastante menor porque não há nada de extraordinário na mulher. Ao que me parece a mulher foi inventada ali no final do séc. XVIII, beirando o XIX, mais ou menos no tempo em que inventaram o adolescente, e ela já foi inventada como um ser faltoso sexualmente, materialmente e intelectualmente e nada mais simples do que saber o que uma existência inventada com tais características pensa: pensa que sim e pensa que não. Não é grande coisa escrever da perspectiva adolescente e da mesma forma é menor escrever como mulher. Também não dou muita relevância para a idéia do homem, mas temos de convir que não é menor do que a idéia de mulher e de jovem. Por isso, colocar-se na posição de uma prostituta judia encarnadora da mulheridade, parece-me um artifício bobo de quem escreve música popular. A sua história nasce morta: como a mulher. Apenas um homem pode escrever bem na perspectiva da mulher, e aquelas que bem o fazem são homens na letra: porque a mulher é uma invenção do homem e apenas o inventor pode fazer a sua criatura falar. Uma peça com personagens femininos deve falar da perspectiva mais difícil, da masculina. A sua literatura é tola ao falar da perspectiva da puta judia. Ainda não existe uma literatura que não seja “desde” o homem. Ainda espero uma literatura, e não gosto de dizê-lo assim, mas não há outro modo, da fêmea.
- Raimundo, que antes não aparecia, suspende-se do vão ao lado da cama onde estava deitado e todo vestido: camisa, colete, calça, sapatos e meias coloridas: violentamente mais vestido do que Margarida, bate com o dedo do meio da mão direita três vezes num copo de metal, afaga a barba e meio que a coça:
(I) todo objeto deve ser
representado. na sua ausência.
todo objeto deve ser
percebido. e de toda razão
esgotável. se todo o amor.
se todo amor. então. toda.
razão. deve ser representável.
e todo objeto deve
ser devolvido a sua cesta.
a sua cesta. e toda
representação deve ser
amada.
(II) hegemonia é a cor do meu
calafrio. mas de calafrios não
tenho medo da
hegemonia nas coisas. mas da
hegemonia na boca. ai.
hegemonia de boca cheia.
hegemonia de boca. cheia.
(III) menos ambivalente?
ai que coisa pouca.
menos ambivalente?
ai que coisa rouca.
menos ambivalente?
ai que coisa nua.
menos ambivalente?
(IV) a religião é uma
coisa social. e de coisa em
coisa. estou. uma
cesta inteira de
coisas sociais.
(V) a autenticidade, Margarida.
cabelos amarelos? e a política
Margarida? cabelos de palha.
e o quando da política Sulamita?
até quando Sulamita?
não há espontaneísmo na morte?
apenas mortes instantâneas?
(VI) você é tolerante, meu amor?
tolerante com a minha democracia?
(Raimundo morde a ponta do polegar)
tolerante o bastante com a dialogia?
e quando a sua tia me vê na pia?
democracia é bacia de noite fria?
(VII) desconfia de mim?
afetado?
desconfia de mim?
perdido. o processo?
o resultado.
Porque ainda devo te responder Margarida, e responderei a esse rigor que abriga em seus louros cabelos, e responderei a devastação que sempre produz em minhas idéias. Mas antes me deixe apresentar algum material sobre a devastação, algumas de minhas notas sobre o poder da devastação, para salvar do natimortismo essa minha história, bem como, apresentar as suas razões estéticas, bem como, provar que as coisas são para mim com menos severidade do que são para os seus olhos brutos. Penso n’A Terra Devastada de Eliot, penso no começo d’O Enterro dos Mortos: “Que raízes são estas que se agarram, galhos que brotam de um entulho rochoso?” e “Um monte de imagens partidas, onde o sol reflete, e a árvore morta não provê abrigo [...]”. Ao que acrescento (aos cabelos louros devastados) – bate a sola de um sapato contra o salto do outro, meio que fazendo graça – esse pequeno complemento:
(I) existe uma força intensa
de convicção que faz
dos olhos habitantes de
outros olhos. esta força
intensa de convicção se exercita
uma única vez. para mostrar
que não se deseja estar noutro
lugar. depois amainar, porque
fere. fere. fere. machuca.
(II) todos os dias se multiplicam
e as maldições contra mim.
e tudo por quê?
porque lhes recuso o olhar.
os perdidos me amaldiçoam com a perdição.
os pobres me amaldiçoam.
as mulheres me amaldiçoam com a solidão.
porque lhes recuso o olhar.
a mim. Margarida. seria bom.
muito bom. Margarida. a.
identificação entre o olhar. e. o. olho.
rapidamente eu arrancaria os dois. olhos.
e entregaria a quem me pedisse. o. olhar.
e se eu não pudesse mais olhar.
eu poderia responder:
- não posso. porque me falta. o. olho.
aí é que eu seria benedictus raimundus.
para todo o sempre.
então. amaria um beato. dictus.
(III) sinédoque Margarida
é por isso que é belo e devastador
ouvir homens que falam da
própria dor pela voz feminina. e
isso não é deixar a mulher. falar.
isso é deixar a mulher. calar.
calar. calar. não lhe ocorre que
a boca mastiga quando fala
catacrese? não lhe ocorre que
catacrese é um pedregulho?
algo que se põe na boca para
aprender a falar. a mulher
é uma catacrese na minha
boca. quero aprender a falar
pela voz da prostituta judia.
para aprender a falar. a minha
língua de lamber. Margarida.
é uma catacrese de chupar.
Margarida. até que eu aprenda
a falar e cuspa a língua. cuspa
a língua. cuspa. cuspa. cuspa.
e fique com a voz Margarida.
com a voz.
- Para um homem que não podia dormir ele até que sentia muito sono. e ele deveria se manter acordado até terminar de rodar na boca a voz da mulher. Ao que Margarida percebeu o contrasenso protestando “mas não é o não-dormir que causa o sono? –
- Margarida, apenas de pé, deixando um dos seios muito grandes e firmes para fora da blusa masculina, e retesando o elástico da calcinha com o mindinho do dedo esquerdo –
Raimundo vasto imundo: aprender a voz da prostituta judia não lhe faz aprender a voz da mulher: o faz apenas brincar na boca com uma catacrese de gelo. Derretendo. Derretendo. Derretendo. Porque para sobreviver ela não é mulher. A mulher nasceu morta. Mas uma moralidade a sustenta. Ela é uma sobrevivência sustentada. Ela é uma sustentação: que segura. que segura. que segura.
não. Raimundo. vasto. e.
imundo. a voz é só
del ( ) e não pode
aprender. a voz é del ( )
e vai derreter. a voz é
del ( ) e vai apagar. a
voz é del ( ). e a
segur ( ). segur ( ). segur ( ).
a prostituta judia no campo
de extermínio. a mulher nasce
morta. como seu romance. ela
é um gelo na boca. um gelo
na boca. mastigado. ela é
um silêncio na boca. impossível.
um silêncio calado.







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