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A colonização do mundo pelos estudos estatísticos

A colonização do mundo pelos estudos estatísticos

A relação entre objetividade e subjetividade sempre esteve presente no modo como construímos o conhecimento. Os mais puristas podem indicar que a noção de subjetividade é própria ao final da idade média e à modernidade filosófica. Mas com nosso enunciado queremos indicar que o sentir e o pensar sempre foram questionados para que pudéssemos conhecer. Uma parte relevante das ciências sociais se preocupa com a possibilidade de se encontrar tendências humanas, quanto ao agir, e para isso, deve, por meio de instrumentos intelectuais, encontrar a influência do sentir sobre o pensar, de modo a estabelecer relações entre essa influência e a ação social. Em seu livro, agora analisado, Otis Dudley Duncan se pergunta: para além da relação entre o sentir e o pensar, existe uma tendência no pensamento em procurar a quantificação dos objetos pensados? Sendo positiva a resposta a essa pergunta. Onde podem ser encontrados os instrumentos para a quantificação dos elementos pensados? Na investigação e percepção do voto, na enumeração das condutas, no dinheiro, no estabelecimento de um rank social, apreciando competência ou performances dos agentes, graduando recompensas e punições, na probabilidade, na utilidade[1]? Onde? Com efeito, a posição de Duncan pode ser descrita como uma forma de historicismo tênue.

O que podemos entender por historicismo tênue? A capacidade de enxergar na história os elementos que só se manifestam em outro período, mais ou menos como fizemos com o conceito de subjetividade. Assim como a subjetividade só pode ser encontrada, como conceito, no final da idade, e complexificada na modernidade, a necessidade de quantificação dos fenômenos é relativamente recente. Da mesma forma para a idéia de quantificação. Ainda que sejamos capazes de perceber na antiguidade clássica elementos que remetam as preocupações que temos na vida contemporânea, a relação de causalidade é sempre muito distante. Se pudéssemos comparar poderíamos dizer que a preocupação com a quantificação é menos perceptível do que a relação entre objetividade e subjetividade, ainda que ambas sejam questões intempestivas.

Contudo, as histórias do voto podem ser mais generosas do que as relações que traçamos entre os conceitos e suas respectivas histórias. Porque efetivamente existe uma literatura acerca dos modos de escolha. Desde Sólon até os debates contemporâneos a voto parece ser o modo pelo qual os homens expressam a sua necessidade de decidir em grupo. A Constituição de Atenas, escrita por Aristóteles, é um documento interessante nesse sentido, a pesquisa acerca da possibilidade da organização política dos povos faz com que o estagirita perceba que existem situações onde a tensão política é mais bem distribuída quando vários homens se responsabilizam pela cisão entre uma opção e outra. O voto é muita mais presente na condução política do que na condução ética.

A Ética Nicômaco é uma teoria da suportabilidade da decisão individual, a sabedoria prática da decisão solitária. Uma investigação sobre o voto na antiguidade deve levar em conta essa tensão. O rigor da decisão autárquica (a noção grega de autarkéia deve ser invocada, como a capacidade do homem de se conduzir sozinho e tomar decisões baseadas em seus próprios juízos) deve ser relacionado com o aliviamento da tensão permitida pelo voto. O historicismo tênue de Duncan parece ser muito adequado para lidar com o voto, ainda que possa ser sujeito a críticas no que se relaciona com a quantificação, pois os elementos que se relacionam com a democracia sempre restam em alguma sorte de sensação que remete à antiguidade. Em tempos se recuperação da filosofia das virtudes, em tempos de recuperação das virtudes do republicanismo, talvez devêssemos recuperar essa tensão entre a capacidade de determinação individual do correto e o espraiamento da responsabilidade pelo voto. De maneira que o voto se torne mais tenso e a determinação política mais compartilhada. A quantificação social de um fenômeno como a tensão entre moralidade e vida pública é impossível, mas o que a narrativa de Duncan nos mostra é que podem ser escolhidas variáveis, como fatores que incidem na prática do voto, passíveis de nos revelar, se não a inteireza do fenômeno, pelo menos aspectos de sua realização. E ainda que, porventura, pouco seja extraído da quantificação social é impossível objetar que o modo como os povos medem as suas necessidades diz muito sobre esses povos e suas práticas.

Comentando a história da metrologia Duncan começa seu capítulo 9 com o seguinte período, mostrando que a metrologia sofre modificações em seu sentido, em virtude da definição e do período:

“The word may be a borrowing from the French, inasmuch as writing métrologie appeared in France in the late eighteenth century. In its narrowest meaning, metrology has to do with equivalences within and between systems of weights and measures, facilitating conversions required in commerce, the industrial arts, surveying, and so on[2]“.

Tanto a metrologia pode indicar um estudo das equivalências nos modos de quantificação, quanto à possibilidade de conversão de medidas antigas em padrões contemporâneos. Assim, essas duas acepções, que Duncan denomina como restritivas, servem como parâmetro para o diálogo entre arbitrariedades, ao mesmo tempo em que elabora discurso acerca da justificação de tais artifícios dentro de contextos sociais. Como dissemos: o saber sobre os modos como medimos nossos fenômenos releva muito sobre nossas sociedades. Duncan avança o argumento para demonstrar de que modo podemos compreender a metrologia de uma maneira não restritiva. Assim, avança na história dos modos de fazer quantitativos e re-elabora, segundo a tradição a qual se vincula, elementos, principalmente em Heródoto, de modos de apresentação da metrologia, cujos elementos já estavam presentes na antiguidade clássica, e que perduram nos modos de investigação acerca, inclusive, do contemporâneo. A metrologia se torna um saber não restritivo, acerca de pesos e medidas, quando nos permite indicar, como tendências, elementos de determinados contextos políticos.

Um exemplo importante pode ser dado com a Revolução Francesa. Parece relativamente distante pensarmos em quantificação e em revolução no mesmo evento. Mas os modos de controle sobre a quantificação dos elementos sociais são características marcantes de um determinado projeto de política. O ideal de universalização dos direitos do homem encontra abrigo no ideal de universalização dos mecanismos com os quais os homens podem interpretar o mundo onde vivem. Se dentre os mecanismos universalizáveis encontramos os conceitos sociais e políticos, também podemos indicar os modos de quantificação da realidade. A tentativa de universalizar os pesos e as medidas, bem como, os modos de descrição das temperaturas e das horas, é bastante característica de uma política que se pretende como verdadeira para toda a humanidade. A luta contra o ideal de universalização dos modos de quantificar também diz muito acerca das sociedades políticas que não aderiram ao projeto. Ao mesmo tempo em que a resistência aos ideais da revolução podia ser exercida do ponto de vista bélico e comercial, também podia ser feita pela recusa à utilização dos modos de mensuração empreendidos pela França. Se a língua é uma boa estratégia de dominação política, também a disseminação das maneiras de medir são bastante características da vinculação política e econômica. Não é absurdo pensar que se relacionam melhor comercialmente Estados que contam seus fenômenos da mesma forma. Por isso diz Duncan:

“Metrological reform was on the agenda of the French Revolution from its beginning in the summoning of the Estates General and the drafting of the Cahiers (1789), or lists of grievances, among which was a demand in the Cahier of the Third Estate of Dourdan “That, within a given time, weights and measures be rendered uniform troughout the entire kington”. The Constituent Assembly in 1790 adopted Talleyrand’s plan for abolition of the costomary units of length and weight, the toise and the livre, in favor of a “perfect” system “based on a constant model, found in nature”. The issue was thereby turned over to the scientists and collaboration with England was sought. But international participation was not forthcoming immediately, despite the fact that parallel proposals were under consideration in both England and the U.S. Its is interesting that the comission of five scientists appointed by the French Academy included two, Borda and Condorcet, whom we have already encountered as pioneers of social measurement. Laplace was also involved in the early work[3]“.

Alguma coisa muito parecida pode ser apontada nas práticas de realização do Código de Napoleão. Ainda que seja acontecimento posterior possui características muito próximas as que levaram à supressão dos modos costumeiros de se quantificar. Na medida em que consistiu em modo sistemático de apresentação do direito, foi também investida de permitir a outros povos a “chance de aderir” ao modo racional de se resolver conflitos. Da mesma forma como o Código de Napoleão foi apresentado como a solução de uniformidade entre o direito interno dos países, a unificação das medidas foi vista como um grande benefício da civilização francesa para o resto da humanidade. Aderir a esse projeto já indicava algo sobre a sociedade que o fazia, bem como a resistência à adesão, como no caso dos EUA e da Inglaterra, também significava algo.

Assim, como em outras regiões do espírito humano, a metrologia, com a modernidade, se posicionou em um projeto científico de racionalização da sociedade como um todo. Esse processo encontrou ecos na política, no direito, e, como não poderia deixar de ser, nos instrumentos pelos quais os homens entram em contato com a mensuração da vida. Um fato bastante interessante é evidenciado pelo nascimento da sociologia nesse período. A sociologia surge meio que no crepúsculo da revolução dos meios de quantificação da vida. Surge após o período em que a sociedade francesa consegue produzir modos de racionalização muito eficientes em política, moral e direito. Surge após o período em que a sociedade francesa consegue produzir a necessidade das sociedades da Inglaterra e dos EUA em resistir aos modos de racionalização, específicos nesses três regimes, acrescentando, os modos de quantificação da vida. Podemos inclusive dizer que a sociologia é um “estágio” complementar dos modos de quantificação da vida. Como nos indica Duncan:

“Even more portentous, perhaps, is the fact that this metrological reform affords the first example of scientific rationalization by society itself, one enthusiastically approved by that great rationalizer and author of the neologism “sociology”, Augusto Comte[4]“.

Uma questão se coloca para os modos de fazer quantificação no mundo moderno e no mundo contemporâneo: a quantificação se organiza em função de uma exigência prática, no sentido de que a vida social é mais fácil quando podemos mensurar os elementos que precisamos usar em nossas vidas? Ou a quantificação é um projeto de regularização da vida implementada pelo bom uso da imaginação a serviço do projeto racional de produção de elementos eficientes para a mensuração da vida social? A resposta não é simples. Mas, ainda assim, pode ser organizada a partir das reflexões de Duncan. O que o autor parece mostrar como evidente é: nem a quantificação é um projeto racional estrito, nem é uma resposta sincera aos modos de organização da vida coletiva.

Se olharmos para o projeto de Heródoto perceberemos que a quantificação pode ser simplesmente um modo de aclarar um argumento, ao mesmo tempo em que é uma constante ferramenta no ato de buscar respostas para a preservação da vida social. É preciso contar para vender, para enterrar os mortos, para guerrear etc. Mas ainda em Heródoto parece haver uma certa vaidade em se poder evidenciar um fenômeno de modo límpido em se atendendo os apelos da mensuração.

Esse segundo fragmento do espírito de Heródoto nos faz lembrar das reformas em quantificação empreendidas durante a Revolução Francesa. Ainda que se trate de um modo de facilitar a vida dos mais simples, consiste, também, na possibilidade racional, de pela política, implementar uma enorme reforma nas mentalidades. De modo que o homem mais simples sempre deverá invocar um sistema correto para poder julgar as suas atividades do dia a dia. Desde do controle decimal das horas até o metro de Paris, passando pelo controle da temperatura e o uso da moeda. Assim, a tese de Duncan aponta para um uso mais racional, enquanto projeto, da metrologia, durante a Revolução Francesa (e resistências da Inglaterra e dos EUA) e uma gradual aproximação da metrologia do mundo da vida em tempos contemporâneos. Ainda discutiremos o fato da metrologia estar mais próxima dos problemas sociais do que estava no século XVIII, mas antes disso acompanhemos um trecho do texto de Duncan:

“All measurement, we see, is social measurement. Physical measures are made for social purposes and physical dimensions may be used by social as well as biological and social scientists. But social measurement in a narrower sense deals with phenomena that are beyond the ken of physics. To extend historical metrology to include social measurement, therefore, will require some modification of thought patterns. For one thing we shall have to overcome our tendency to think social measurement or quantification as something external to the social system in the sense, say, that the tailor’s tape measure is external to the costomer’s waist. On the contrary, I argue, the quantification is implicit – sometimes explicit, for an observer not blinded by methodological preconceptions – in the social process itself before any social scientist intrudes[5]“.

A tese de Duncan neste trecho reproduzido acima parece irrefutável em um determinado sentido. Sabendo que os modos de quantificação são parte intrínseca da realização social, um axioma deve ser incorporado, qual seja, independentemente da origem, todos os modos de quantificação podem ser interpretados como quantificação social. Pois, ainda que estejamos diante de projetos de racionalização da sociedade, ou de descrição rigorosa e teórica, estamos a nos relacionar com processos que envolvem a ação conjunta do homem. A mais abstrata teoria acerca dos modos de quantificação só encontra sentido desde que referenciada com o mundo social que a produziu. Se os modos de quantificação presentes em Heródoto demonstravam uma proximidade maior entre fenômeno e racionalização, a Revolução Francesa, como seu projeto de conversão racional aos modos universais de metrologia, é tão social quanto qualquer outra manifestação.

Agora, será que a metrologia em todos os momentos de sua elaboração teórica sempre está, da mesma forma, próxima da atividade social? Porque deve existir uma diferença entre ser social e estar próxima das movimentações sociais. Duncan entende que as inovações promovidas pela pesquisa da quantificação, da metrologia, não são simplesmente fruto de experimentos para sanar a imaginação científica[6]. Consistem em respostas diretamente conectadas com um determinado movimento social, de modo que respondem a necessidades sociais e institucionais. Essa afirmativa, em larga medida, também parece estar correta, mas simplesmente confirmam o fato de que a participação social, da metrologia, é indiscutível. Contudo, os vícios detectados na Revolução Francesa podem ser detectados na continuação sociológica da quantificação social. Os métodos são desenvolvidos para explicar um mundo, mas acabam por compor um mundo. A técnica, apesar de surgir para explicitar, acaba por transformar o mundo onde habita. O papel da transformação não é problemático, mas a criação de imagens de mundo, intelectualizadas, que forçam a atividade ordinária a se entender com elas é um processo mais complicado e passível de algumas críticas. Críticas essas que devem ser organizadas no sentido de ligar a atividade de quantificar a atividade social, com a compreensão social acerca de suas próprias práticas. O papel colonizador presente na Revolução Francesa parece não existir mais, mas os estudos estatísticos parecem exercer uma função parecida.

Bibliografia:

Duncan, Otis Dudley. Notes on social measurement. New York: Russel Sage Foundation, 1984.

[1] Notes on social measurement. p. 112

[2] Notes on social measurement. p. 12

[3] Notes on social measurement. p. 21

[4] Notes on social measurement. p. 23

[5] Notes on social measurement. p. 35-36

[6] Notes on social measurement. p. 106

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