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o corpo do escritor é de papel

Estou pesquisando alguns temas sobre o uso das imagens na obra de Kafka. E acabei por me acostumar a colocar aqui no Modos de Fazer Mundos coisas que não gostaria de esquecer. Há tempos li em algum livro do Derrida comentários sobre a característica da escritura em buscar no tempo alguma coisa que a permita continuar. Não se trata propriamente de duração, mas de permanência. Daí os pequenos pedaços de papel: eles acabam por assumir a função de fragmentos do corpo, mais ou menos como fios de tecido amarrados no dedo. Não sem ironia, e por vezes sem declarar, trago aos Modos artifícios de permanência. Na maioria das vezes não digo nadinha de nada, porque a enunciação desposa o esquecimento. Dessa vez, resolvi dizer alguma coisa, para que a enunciação seja uma talhadeira. Não sem ironia resolvi lembrar destes dois momentos do Saramago. Porque ainda gosto muito das autoridades. Os homens que escrevem muito durante muito tempo, acabam por inventar um corpo um pouco sofrido e bom de se fazer lembrar coisas nele. Por isso, o corpo do escritor, e esse é o corpo do Saramago, e tal não diz respeito a se apreciar a sua escritura, se perde do dono e funciona como um pedaço de papel. Kafka, em papel. Kafka, de papel. Assim habito um corpo parecido com os muitos que espalho sobre a mesa: assim me esqueço no papel.

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