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como quem goteja no infinito

A crescente fusão dos modos artísticos, nisso que arte contemporânea denomina de dissolução do aspecto definidor dos elementos formais, acaba por obrigar a crítica de arte a abandonar parte de sua segurança. A segurança pode ser descrita nos seguintes termos: uma vez que me torno disponível a certo tipo de experiência, produzo uma linguagem com capacidade de profundidade acerca do fenômeno ao qual me exponho. A continuidade, por conseguinte, faz-me confortável na linguagem desenvolvida. Assim, mais ou menos como um enólogo o crítico de arte pode chegar a se sentir seguro na linguagem que utiliza. Uma vez que o crítico lê muitos romances, a linguagem para se falar de romances não se alterará tanto. Uma vez que o crítico vê muitas telas, ou instalações, acaba por criar uma linguagem para lidar com aquele experimento. Uma vez que o crítico escuta muitas músicas, a mesma coisa acontece. Haveria uma infinita possibilidade de aprofundamento da experiência – em música, em cor, ou em letra – mas de alguma forma a linguagem aprenderia a lidar com as profundidades, de modo a se tornar mais e mais inteligível. Por mais que algumas obras retirassem o crítico de sua linguagem constituída, uma experiência bastante aprofundada retiraria do campo dos acontecimentos, cada vez de modo mais agudo, essa possibilidade. Noutras palavras, quanto mais o crítico experimentasse, menos poderia ser surpreendido. Por isso, mais completa seria a sua poética para lidar com novos fenômenos. Um crítico bem preparado seria um crítico à prova de surpresas.

O conforto do crítico acontece; mas isso consiste numa característica da natureza humana e não numa perfídia crítica. Vamos envelhecendo, a nossa linguagem se torna mais concisa e definidora, e nos cansamos de falar coisas sobre coisas. Porque, e isso é apenas uma impressão, parece que já vimos tudo. Mas a dissolução das formas acrescenta um componente social que impede que esse envelhecimento da linguagem possa ser visto com bons olhos. Os fenômenos artísticos são cada vez mais imbricados. Dificilmente poderíamos vedar aos romances o predicado de arte visual. Podemos dizer que não é uma preocupação moderna que o romance seja uma arte visual, e que tal ou qual autor não se ocupa para explorar bem essa razão, mas uma vez que ela é percebida e inventada, podemos criticar um romance pela inconsistência no uso da visualidade do texto. A música é cada vez mais cênica. E não é muito novo dizer que existem elementos pictóricos na música. Por outro lado, a poesia é cada vez mais música, e cada vez mais visualidade. E todas essas manifestações participam da busca do espírito humano por modalidades de expressão de afetos, ainda que desafetar possa ser o objetivo. Nisso, qualquer crítico será constantemente colocado na posição de fragilidade de linguagem e de corpo diante das coisas. Isso que nos faz ter hábitos é quase que sempre vedado. E cada vez mais é conturbada a possibilidade de se aprofundar numa experiência. Mas esse acréscimo social não é pernicioso. Ele apenas demanda que não nos aprofundemos pela formalidade, mas pela expressão.

Digo isso para comentar as peças do concerto que ouvi ontem. Rhapsodie e Sonates de Debussy, a primeira composta em 1905, logo depois do sucesso de La Mer. As Sonates foram compostas nos últimos anos de vida do compositor. Ainda, ouvi Quatuor pour la fin du temps de Olivier Messiaen, composta num campo de prisioneiros da guerra de 40. Ambas as peças tem fortes elementos pictóricos. Mas parece que é impossível a música não ter elementos pictóricos, como de todo parece impossível a qualquer experiência humana não ter elementos pictóricos. Parece que antes de qualquer significação mais apertada, são os elementos pictóricos que escrevem a experiência. E, por isso, também escrevem a experiência da música. O velho Schopenhauer dizia que a música era a única forma artística sem representação, sendo uma espécie de pura Vontade, o que demanda certo domínio de sua metafísica para ser compreendido. Mas fiquemos apenas com a primeira parte das teses de Schopenhauer sobre a música, o que significa dizer que música é uma arte sem representação? Por certo, ele não se preocupa com o sistema de notação, que de todo não é música ou linguagem, mas com o fato de que a música não diz respeito a nada que se veja. A música e depois a poesia são as formas artísticas mais avessas a representação. Assim, a música pode apresentar um afeto, mas nunca o representa. Nisso tudo não está vedada a composição pictórica da experiência. Porque certa composição minimal das cores não representa nada. Mas é requisito para que tudo possa ser representado ou apresentado. Nas peças de Debussy ouvidas ontem os elementos pictóricos são intensos. E sempre é possível dizer que se trata de uma pictorialidade impressionista. Daí poderia ser dito, se a música não trata da representação, quando a música dá-se a representação, poderia dizer-se que é uma música ruim? Acredito que sim. Se ouvirmos navios, numa representação do som dos navios estamos a ouvir algo pior. De forma semelhante a sentir fome diante de uma tela que representa uma maça. Ainda que seja do afeto do que trata toda a experiência humana, os afetos artísticos demandam certa elaboração do afeto. E Debussy acerta com intensidade, não há uma representação sequer. Existe impressionismo, existe cor, mas não se formam imagens figurativas, e daí a sua genialidade.

O clarinetista foi um exemplo de provocação de ambivalências. Jerome-Julien Lafferière tratou as cores de Debussy com que atira pedregulhos coloridos numa janela, e não como deve ser: como quem goteja no infinito. Mas logo entendi o problema de Lafferière, ele estava com a cabeça em Messiaen. E dessa vez os seus pedregulhos funcionaram feito o sublime. Reza a lenda que a primeira execução de Quatuor pour la fin du temps foi no mesmo campo de prisioneiros em que foi composta. E que o silêncio dos prisioneiros diante da execução, foi o mais belo sublime, se é que podemos dizer desta forma. Estou com a última nota ainda em meu espírito. E ainda aguardo ser liberado, nu, em silêncio, com fome, com frio, sem pulmões, só alma.

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