Arden: sobre a nudez e a poesia
Estivera convencido de que seria o último dia. Um pouco dramático, porque como não sou um bom motorista, mas sinto certa propensão a ir a alguns lugares dirigindo, o espectro de que pode ser o último dia é sempre bastante marcado. Estivera convencido, mas a minha cabeça funcionara com alguma agudeza e tive muitas idéias naquele possÃvel último dia. Fora exatamente há um ano, estivera eu no Festival de Campos do Jordão, minha vida era um pouco mais embaralhada, e só pude ir num único dia. E foi um fabuloso último dia. Cheguei bem cedo, porque quisera habitar as esculturas de Felicia Leirner, uma última vez. Não dei muita atenção ao meu enfisema e comprei cigarrilhas, deliciosas cigarrilhas café creme, daquelas azuis, daquelas azuis tão cheirosas, quisera passar o meu último dia fumando, e olhando o horizonte, e as araucárias, e as esculturas de Leirner. No meu último dia quisera ver de bem perto aquela menina de bronze com um gatinho, que tão bem entendo. E todas as formas fundidas, e as formas grandes e brancas, com água acumulada pelos entornos, e teias de aranha, e toda uma poética da natureza a intervir na aguda poética do espaço.
No meu último dia escutara, depois de uma tarde a ver, e a escrever, e a ter idéias, Enoch Arden de Strauss. Esta bela peça foi composta em 1897 sobre um poema do Laureado Lord Tennyson escrito em 1864. Deve-se dizer que no meu último dia estivera a escutar uma bela conjugação entre poesia e música. Strauss não altera muito o ritmo de leitura do poema, ele é basicamente lido, e a música entremeia com alguma expressividade, alguma dramaticidade, e algum silêncio. Neste poema ouvido, de meu último dia, não existe propriamente uma abertura do poema a composição musical, mas existe uma bela estabilização de presenças. O poema conta um pouco sobre Enoch Arden, um homem, um pescador, que depois de um acidente teve que se tornar um marinheiro comerciante, ele se perde no mar durante um bom perÃodo de tempo. Arden possui uma mulher linda, da qual precisa se ausentar para os negócios, ele não deseja viajar, ele viaja porque sua mulher, e seus dois filhos, precisam que ele se ausente para conseguir o sustento. Ele se perde no mar, e como era de se esperar, sua mulher o espera durante muitos anos, e muitos anos espera, até que não mais espera, e se casa com um outro homem, um amigo de infância, que a ama bastante, e que de todo é um bom homem. A senhora de Arden consegue ser um pouco feliz novamente. Nesse meio tempo ela perde um dos filhos que teve com Arden, e tem um outro filho com esse novo homem. Enoch retorna, vê a mulher, vê os acontecimentos, mas não consegue retornar a vida que lhe foi estranhamente retirada, ele não revela a mulher que ainda está vivo, e silenciosamente morre de coração partido.
Nesse último dia tive a idéia de escrever sobre as roupas fechadas, de modo a traçar prognósticos acerca do quão difÃcil seria para que os casais, aqueles escolhidos para o experimento, cujo critério seria o acidente, pudessem se livrar de suas vestimentas, de modo a que fosse possÃvel amor em lugares públicos, e que isso, a facilidade para se livrar das roupas, seria certo sinal de felicidade. Os casais felizes teriam roupas relativamente retiráveis, e por isso, por mais que não praticassem – e as roupas poderiam ser bem fechadas, desde que a techné de retirá-las fosse capaz de suprir o aperto – sexo em lugares não convencionais, teriam eles na certeza de uma rápida nudez, a convicção necessária para a felicidade. Vira eu nesse último dia alguns casais passeando pelos ares livres das esculturas de Leirner. O casal de meia idade mais elegante, pela minha teoria, não pudera ser feliz, ela jamais conseguiria se desvencilhar daquela calça apertada, e daquela bunda enorme, e daquelas botas a entupir a parte da calça que poderia ser desvencilhada depois de passar pelos pés, ela demoraria tanto para tirar as botas, e fazer a calça passar pela bunda, e passar os pés pelas calças, que a convicção da felicidade passaria ao largo, e todos os leitores aventariam que o amor poderia acontecer sem todo esse desvencilhar, de que a nudez está em todo canto, de que a nudez habita um lóbulo, mas aquela mulher assim jamais permitira, ela não permitiria que lhe amassem a orelha, assim, desde minha teoria, de meus prolegômenos, desde o último dia, sentenciei de que ali a dificuldade da nudez impediria a felicidade. Pensara, no último dia, que Arden seria um homem de nudez fácil, de excitação simples, e de que sua amada também o fora, e de que a felicidade de Arden fora tão simples, que pudera em favor do amor, do outro. A nudez simples de Arden o permitira morrer muito fácil, morrer de amargor, e de doçura; mas qual o porquê de Strauss não pintar o poema com uma nova rÃtmica? Por que Strauss padecera de tanto medo da nudez? Por que não permitir que a poesia e a música deixassem de ser duas coisas separadas, para ser uma casa, apenas? Será que foi o pudor do Lord Tennyson, que impediu o despudor de Strauss? O ponto é que Strauss e Lord Tennyson tinham mais medo da nudez do que Arden, e, por isso, na infelicidade, foi Arden o único capaz de ser feliz.
Estivera eu, no meu último dia, que fora um dia treze, e me convenci de que apenas nos dias treze se pudera ter um último dia, porque são treze os atributos de D’us, e daà está feita a festa de conjugações arbitrárias para se ultimar um dia, e passara o dia, e não foi meu último. Convencido de que teria um novo último dia, e não menos enfisematoso do que no ano anterior, mas agora um pouco mais pudico com as deliciosas cigarrilhas, resolvi dirigir um pouco mais. E não fui mais cedo, e não fiquei a ver as esculturas, e não fumei minhas cigarrilhas, e senti frio, e senti frio, e senti um frio bastante bom de sentir. Neste dia, que também não foi o último, depois de escrever uma poesia sobre a nudez, as laranjas e as tangerinas percebi que o programa do dia em Campos do Jordão, que agora acompanharei não apenas em últimos dias, tratava da poesia. Dentre outras coisas fazia parte do programa do dia Trois Poèmes de Stephane Mallarmé  composta por Ravel em 1913. Donde minha teoria da nudez voltou a fazer parte dos meus demônios atuais. E voltou o meu pensamento sobre as marcas, e voltou àquela forte licenciosidade do coração partido de Arden. Mas será que Ravel possui a mesma disponibilidade à nudez que o meu bom e querido Arden? Será que Ravel morre de coração partido, sem manifestar que está vivo? Esta peça de Ravel faz parte de uma intensa genealogia de música vocal composta de Pierrot Lunaire  de Schoenberg e Trois Lyriques Japonaises  de Stravinsky. O que nos leva a dizer que 1913 foi um ano de plena nudez. Ao pensar que o máximo que podemos tirar são as roupas, ouço Stefano Gervasoni. Descubro que existe um se despir da pele, um restar nos ossos, mas que ainda não compreendo completamente, mas que constitui numa tensão absurda. Eis que chego a uma conclusão para meus últimos dias, a poesia deve estar sempre nua. A poesia deve rapidamente restar convicta de sua capacidade de se despir, de restar oferecida à música. Aprendendo a morrer da única forma tolerável: em silêncio e nua.







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