Por mais delirante que seja a idéia da democracia, delirante porque impede, nesse aspecto, a formulação de outros mundos, sob outras lógicas, o que não significa que não seja uma boa lógica, ela está ligada a valores bem pragmáticos. Seja lá qual for a democracia os homens devem poder dizer aquilo que pensam, e, de modo mais elaborado, os homens devem poder escrever aquilo que pensam, e, de modo ainda mais elaborado, os homens devem poder debater acerca do que outros homens pensam daquilo que outros homens pensam. A imprensa acrescenta algo de muito poético à vida democrática. Ela transfere o valor da liberdade da boca para o mundo, do ouvido para o corpo. Por certo, que esse acréscimo poético à democracia depende de toda uma gama de invenções bastante sujas e barulhentas. É dependente da popularização das prensas, dos parques de impressão, do uso muito pouco nobre da tinta etc. Donde, a sÃntese poética da democracia pode ser denominada de liberdade de imprensa. Claro que é possÃvel termos democracias sem liberdade de imprensa, afinal de contas a democracia, como a liberdade, nada mais é do que um nome, contudo, uma vez que existe alguma associação entre liberdade e imprensa e democracia, quebrar essa cadeia associativa é bastante estranho. Não há porque chamar de liberdade algo que é menor do que a liberdade que se tinha. Assim, melhor é a cadeia associativa que acrescenta elementos poéticos à liberdade de imprensa. Por isso, denominar um blog de liberdade de imprensa participa da poética da liberdade, bem como, iniciativas coletivas que distribuem papéis fotocopiados na saÃda de instituições, como se fazia, pelo próprio Marx, nas fábricas inglesas.
O caso é que a poética é sempre exigente, e se os acréscimos forem interrompidos, logo o sentido se faz bastante envelhecido, e cada vez mais envelhecido, donde, subtrair elementos toma formas de adição, e temos, como quem apaga o mundo com uma borracha, um mundo constantemente menor do que si mesmo, sempre menor do que seus valores, ou do que suas ficções. Na República Velha os pequenos jornais realizavam com bastante intensidade a chamada liberdade de imprensa, claro que com uma série de problemas. Nas cidades pequenas, nas quais acontecia alguma vida polÃtica em função da grande concentração de renda produzida pelas monoculturas, os jornais realizavam alguma coisa de humor, um humor bastante complicado, que era capaz de gerar assassinatos, e dissoluções, mas um agudo humor, que levava novas prensas a surgir, que levava velhas prensas a desaparecer, que levava jornais rivais a serem impressos numa mesma prensa. A poética do jornalista ainda não estava dada, mas o jornalista surge como uma necessidade estética, esse plano ao qual gostarÃamos de chamar de liberdade, precisava de um tipo de homem outro, que não lutava por interesses primários, mas secundários, e que possuÃa um humor desafiador da morte e da fome. E que não tinha sono como os outros homens, e que era menor do que os outros homens, e por isso mesmo, infinitamente maior. Não era um intelectual, não fazia parte, num primeiro momento, das rodas das altas literaturas, mas que escrevia e mantinha coitos ambivalentes com a verdade. Essa figura morreu. Essa figura deu lugar à s grandes prensas, cada rival possui a sua. Da mesma forma, deu lugar a uma figura criada na universidade. Algo do sentido trágico do jornalismo se perdeu com essa troca. Inclusive, certo decréscimo poético aconteceu. Contudo, do ponto de vista social algumas conquistas: criação de um mercado de trabalho com alguma projeção de carreira, estabilização dos salários, a regularização dos assinantes etc. Mas não podemos nos furtar de relacionar a figura universitária do jornalista com o perÃodo de ditaduras militares latino-americanas, bem como, com a massificação da imprensa norte-americana. Existem fortes conexões entre o jornalismo universitário e a intensa perda da liberdade de imprensa. Esta perda, todavia, não se deu na esfera dos direitos, mas no reino da opinião.
O debate sobre obrigatoriedade de tÃtulo para o jornalismo é enfadonho. Não estranha que se tenha discutido com alguma atenção pelos jornais e pelo judiciário, os lugares nos quais habita o enfadonho. Porque a questão é: quão mais aprofundada foi à superficialidade da opinião, menos nos é dado participar da esfera pública por termos uma opinião. Por opinião se deve entender um ato psicológico enunciativo bastante simples, segundo o qual pelo modo de afetação dos valores que me fazem entorno; devo, com algum imediaticidade, informar aqueles que têm acesso a minha voz, ou a minha prensa, o que prefiro. Saber a opinião dos outros era alguma coisa bastante relevante no século XVIII. Justamente, porque não se tinha um regime de opiniões, e criar modos pelos quais os ouvidos pudessem estar ligados a essa dimensão da imediaticidade psicológica era algo relevante. Em suma, no século XVIII a opinião se fazia relevante, por motivos alheios a opinião, que de todo não devia ter importância alguma. A opinião, nessa circunstância, fazia carregar algum espaço para certo tipo de pensamento, incapaz de florescer sem as estruturas enunciativas que permitissem a opinião. Cá entre nós, a opinião inverteu o jogo das estruturas, e tal como uma erva bastante daninha sufocou a estrutura enunciativa a que deu origem. Os jornalistas universitários não fazem parte da estrutura enunciativa, mas da irradiação daninha. Num certo momento, os blogs também se tornarão parte dessa irradiação daninha. Por isso, nada melhor para a liberdade de imprimir pensamentos no mundo, o que podemos chamar de democracia, que ludibriarmos o futuro acerca dos lugares de inscrição. As nossas futuras idéias estarão aÃ, nesse lugar sem endereço e plenamente passÃvel de marcas.








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