A festa da menina morta de Nachtergaele: cor, tempo e crença
Pode-se dizer que A festa da menina morta (2009, dir. Matheus Nachtergaele) possui uma infinidade de méritos dramatúrgicos, mas não me ocupo deles. Esta obra possui, sobretudo, méritos pictóricos. A experiência, em todas as suas nuances, é mostrada. Antes de tudo: “O mundo é real-ilusãoâ€. Esta sentença pode ser esoterizada muito facilmente, mas a direção-roteiro de Nachtergaele se desvia dessa possibilidade menor. Real-ilusão é mundo – a relação deve ser repetida infinitamente, como uma torneira que pinga. Ãgua ardente pode acrescentar intensidade ao mundo que goteja entre realidade e ilusão.
E se a princÃpio distinguimos uma coisa da outra – o real da ilusão, a pinga da sobriedade e o gotejamento do silêncio –, se repetirmos a seqüência teremos um mundo indiscernÃvel no que concerne à realidade e à ilusão. Não sei como esse problema foi resolvido no roteiro, mas uma das formas seria acrescentando uma ponte entre real e ilusão. Ficaria assim: real_ilusão, em que “_†significa mundo.
As cores do filme são muito interessantes: (1)azuis muito intensos por vezes mesclados com verde, presentes em planos abertos do céu e do rio; (2)cores intensas rapidamente interrompidas por planos sombreados, nos quais os homens vivem; e (3)cores mais escuras, com planos de breu, no qual vive o beato (Santinho) e no qual acontecem as texturas dos insetos, e por vezes a textura do incesto. Essas cores marcam certa estrutura coesa, que é bastante complexificada com o manto do beato, mais claro, repleto de inscrições sÃgnicas: sobre a morte, a menina que morreu, a dor etc. A inscrição inaugura uma afetividade cromática passÃvel de ser encontrada no vestido na menina emoldurado e no vestido da mãe. Existe um afeto cromático que liga manto_vestido da menina_vestido da mãe, cuja resposta é o sangue de galinha e sangue da mão.
“A palavra é dorâ€. Por isso, as cores são tão interessantes, como na brincadeira do inseto turvo sobre o sangue na pia. Apenas não consegui compreender a relevância das cores das cantoras gêmeas e dos rapazes que dançam como robores ao som de bossa nova. Esses momentos foram por demais distintos e poderiam ser suprimidos na montagem.
Para mantermos estes comentários no campo da arte visual, e não da dramaturgia, falemos do tempo e da crença. Elementos que nos permitem dizer que Nachtergaele compreendeu a experiência, e por isso foi consistente com as imagens. O tempo d’A festa da menina morta é a repetição da cotidianidade. Não se trata da repetição identitária presente em eventos ordinários, nem a repetição diferencial presente em eventos extraordinários. Não é nem a repetição de todo dia e nem a repetição da história. A repetição da cotidianidade consiste na percepção do assombro da experiência – a esta dimensão chamarei de reiteratio. Perceber que a pia pode pingar é notar uma repetição ordinária; perceber que a pia pinga, como o sangue e a porra e a lágrima pingam, não é alguma sorte de analogia universalis, mas reiteratio. A reiteratio, nesta primeira direção de Nachtergaele, assume a seguinte estrutura:
água pingo benção porra banho corte
água pingo benção porra banho corte
água pingo benção porra banho corte
A razão da reiteratio é a inversão da pergunta de uma personagem ao irmão da menina morta que insiste em se embebedar: “Mas por que insiste em amargurar um dia feliz?â€, cuja inversão seria: deve-se amargurar um dia feliz. A água deve se repetir em afogamento e pureza e afogamento. O pingo deve se repetir em barulho e memória e barulho. A benção deve se repetir em beatitude e loucura e beatitude. A porra deve se repetir em sodomia e incesto e sodomia. A reiteratio é a perturbação contida em potência em todos os acontecimentos, para que se tornem cotidianos, mas não ordinários – fantasmáticos.
A crença é o último ponto desta crÃtica. N’A festa da menina morta as operações da crença são muito intensas. Não existe opção ao Santinho em não ser o beato. Da mesma forma, não existe opção ao Santinho em não desejar sê-lo – talvez, apenas, alguns gotejamentos poderiam ser diferentes, mas a reiteratio é sempre necessária. A crença tem algo de mental, mas um algo que se dá numa coletividade de impressões que fazem com que as intensidades instituam o Santo. A crença faz com que todas as imagens adquiram sentido, por mais estranhos que possam ser, ou aparecer. No fim, um homem deve se fazer difÃcil a tal ponto que vencer a si próprio possa ser um grande feito. Afinal, o mundo é real e ilusão. Ou melhor, real_ilusão.









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