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Fabio Cardoso: a nudez e o âmbar

Alguma coisa deve ser dita sobre o tempo, mas para que alguém possa dizê-la é preciso compreender os ardis do tempo. O primeiro dos ardis é que o tempo não pode ser interrompido. Ele marca o ritmo da experiência. Ele se confunde com a própria experiência. O segundo dos ardis é que o tempo pode ser manipulado pela arte, numa espécie de interrupção, numa espécie de contraste, e nessas engendras é como se pudéssemos vê-lo passar.

Assim, temos a instituição pictórica do tempo, na qual o tempo mostra um espectro de si mesmo, mais agressivo, e mostra os contrates de sua composição. Depois podemos ter a aplicação de um envelhecimento nas imagens do tempo, como quando os filmes são comidos pela ação dos fungos, da umidade. Esse é um tempo que não está preocupado em mostrar a sua composição, mas consiste num tempo que satura a si próprio: nesse tempo estão contidas as belezas outonais das cores esmaecidas, das oxidações, dos amarelos bizantinos, do mofo das fotografias e das velhas malas de viagem.

O terceiro dos ardis do tempo é que seu ritmo não se confunde com a sua duração. Por mais acelerada que seja uma virada rítmica, isso não significa que passe rápido demais ou devagar, as durações do tempo são distantes das batidas do tempo, porque se a rítmica segue de um lado para o outro, sem profundidade, a duração segue sempre para dentro, não como quem se opõe ao fora, mas como quem conhece uma intimidade.

Sabe-se que a experiência é escrita por cores: os ardis do tempo são modos de apresentação das cores. A experiência, ao instituir uma nova significação, se escreve pelo preto sobre o branco e ao aprender a falar essa língua se exaspera para o exercício regular das outras cores. Por isso, sempre é muito difícil combinar ardis. Parece que arte economiza a combinação das ardilosidades do tempo para deixar sempre explícita qual a engendra escolhida. Isso porque para suportar as angústias da experiência, na combinação dos ardis, e não existe nada mais sofrível do que não saber qual dos tempos nos interpela, seria demandada uma resistência quase infinita: alguma coisa como combinar a violência do preto sobre o branco e a dimensão outonal do envelhecimento das cores, a força de um novo sentido e a melancolia dos sentidos passados.

Trata-se mais do que recepcionar os ritmos do tempo, ou insistir numa duração destacada da cadência, mais ainda do que colocar o preto sobre o branco do lado de um outono sempre impossível, seriam violências e outonos indiscerníveis, trata-se de instituir uma significação no mundo, mas, que sem aviso, atrasa e adianta: continuamente, sucessivamente e em sobreposição. A série 99 Portas, de Fábio Cardoso, que antecedeu Pas Toi (em exposição no Rio até 3 de abril; ver abaixo), apesar de mostrar alguma indecidibilidade, cujo resultado é o equilíbrio da angústia nas cores, não estabelece a sustentação de ardis tão distintos.

Pas Toi fala de um tempo que não pode ser interrompido, mas fala também do ato de se emoldurar o tempo. O tempo está inscrito no sabor do dia-a-dia, mas aprofunda alguma coisa nos objetos percebidos. Os objetos não se encontram no tempo do ordinário – aquele que não se inscreve e que não envelhece –, mas em alguma coisa que por vezes é confundida com a ordinaridade. Os objetos de Pas Toi se apresentam na cotidianidade: cuja semelhança com o ordinário é sempre significativa, mas cujo predicado do espanto se impõe como enigma.

Com efeito, o cotidiano é a ordinaridade mais o espanto. Bruxuleantes pincéis, tesouras, martelos etc., todos esses objetos recebem estatuto de imagens privilegiadas: forte animismo do tempo a desenvolver enigmas espantosos. A estratégia utilizada por Fábio para congelar um tempo que não pode ser interrompido é a cristalização do âmbar. Mas a perfídia do âmbar – sempre poética – não aplaca a vociferância do tempo que se deseja inscrito, que, além da significação, deseja continuar passando. Ainda antes do âmbar, do efeito de outono que ele provoca, ainda que possa ser uma alma de outono em sangue, existe a nudez, e no caso desta série apenas podemos imaginá-la por detrás da superfície cristalizada. Apenas podemos imaginar que por detrás do âmbar existe a instituição do preto sobre o branco, sem qualquer outono. O início de um tempo que começa a passar.

Existe uma angústia imensa para ser suportada, da sobreposição de ardis e da composição entre o preto sobre branco imaginado e a cristalização do âmbar. As imagens não estão dispostas em mostruário, não existe: ou inscrição, ou outono, existe uma coisa só: apenas uma única dobra indiscernível de um tempo que ao mesmo tempo em que passa, se detém interrompido, ao mesmo tempo em que coloca os objetos para dançar, os interrompe pelo âmbar, ao mesmo tempo em que exige uma nudez, esconde toda a tela pelo acrílico: em verde, amarelo, vermelho etc.

Serviço: Fábio Cardoso – Pas Toi
Abertura: 05 de março de 2009, às 18h
Visitação: 06 de março até 03 de abril de 2009
Segunda a sexta, das 14h às 19h
Aos sábados, agendamento para grupos por telefone
Rua Paulo Barreto 77, Botafogo
22280-010 Rio de Janeiro RJ Brasil
Telefone: (21) 2541 4935

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