Sentimento apavorado
I
A melodia triste ao fundo
entoa o canto do bom piano nostálgico.
Um velho instrumento.
Com o entoar da bela moça:
faz-se vivo
em sua voz.
Sempre que dizes que o amor é algo,
vejo tristeza, não uma tristeza feia;
mas sim o gosto de lembrar dos tempos
de poucos anos.
Tu que és de todos nós, que um dia,
ao soprar do vento na face;
pudeste sentir o rolar da lágrima na
certeza dos olhos saudosos do amor.
Que voltaste da guerra, que amaste
tanto quanto a vida, que penetraste
o coração, fazendo-se melodia.
II
Não deves se arrepender de nada,
o arrependimento é para os tolos
que não bebem da loucura do
vermelho de sua voz.
Enrubesces a alma
dos que sentem saudade do lar.
Cantas, o cântico de todos os apavorados,
brindas a tristeza do pierrô derrotado.
A infidelidade da mulher do palhaço.
O tombo no picadeiro.
Riam todos do nariz vermelho.
O rubro dos seus lábios,
o furo do seu agasalho,
a firme voz.
Cante o azul dos olhos!
III
Somos todos legionários
deste seu sentimento apavorado.
O desespero daqueles que vão lutar
encontra em sua voz
o significado de um sentir existencial.
Que deve ser protegido.
És o resumo profÃcuo de toda uma pátria.
Uma grande parcela do ser de todos nós.
IV
Tempos de ocupação não calam
sua bela voz, a voz dos intrépidos.
Pois és o renascer de toda a Europa.
O turbilhão de cores e tons
que vence o ensurdecer dos canhões.
O breu contÃnuo do sofrimento.
Quando esquecemos a voz dos olhos.
Doçura desesperada.
Sua voz pode ser triste,
mas combates a solidão.
O sofrer é doce como um
novo amor.
Traz a vida.
O renascer da terra.
Enquanto só havia destroços,
a vitrola entoava a sua alma.
Rugia o som da vida.
V
Para que serve o amor?
O abrir dos seus braços.
Para que serve o amor?
O abrir do seu sorriso.
Para que serve o amor?
Enquanto a pergunta se repetir em eco.
Estarás viva.
VI
O mundo não terá outro reflexo
da mais pura sinceridade.
A sua capacidade
de poder cantar a vida.
Nós a aplaudimos.
Febrilmente nos levantamos
de nossas vidas.
Cantarolamos aos amantes.
Amantes da França, de Paris, do mundo.
As palmas não cessarão.
VII
Não se arrependas de nada.
A voz de uma época é a razão
de nos lembrarmos da paixão.
Sermos embalados pelo teu penar.
Soldados, amantes, floristas e palhaços.
Até os canhões irão esperar
para vê-la passar e cantar.
O mundo cala-se pela sua loucura.
VIII
Se tu és triste
meu deus por quê?
Ela pergunta incessantemente.
Não sabemos responder.
A luz da ribalta anoitece.
Piaf, tu nos ensinaste a sonhar.
No seu encontro com a história
deixaste uma maravilhosa
saudade.









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