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José Bechara: analítica do preto e do branco e suas cores

José Bechara: analítica do preto e do branco e suas cores

[este artigo tem como referência a obra Blefuscu, de José Bechara
(Santiago de Compostela: Artedardo, 2008)]

Se com a série de fotografias Paisagem doméstica ou não me lembro do que dissemos ontem Bechara inaugura a abertura para a transfiguração de sua obra; a capacidade de ser compreendida como jogo de imagens e não como jogo de transformações – nas quais até mesmo a transformação é oxidação de imagens –, com a série Open house apreende à exaustão a linguagem que institui. Não se trata, com a série Open house, de violentar a experiência com uma instituição – o primeiro vomitório das casas já foi tomado –, mas de exaurir uma regra, uma constituição, completada com o conjunto de transparências denominado Gelosia. Open house, para aprender uma expressão, torna A casa um exercício de minimalismo.

Por minimalismo não queremos dizer a falta de elementos, ou uma dieta da arte, mas um esforço, verdadeiramente aplicado, de tornar a imaginação bastante mais sutil e mais delicada. Mas se julgávamos que as instituições foram deixadas para trás, estamos enganados, porque Open house, pelo exercício de um tempo mais conjunto, mais apertado, mais urgente, aplica contraste ao que é essencial à possibilidade de instituir planos pictóricos. Como se apenas pela constituição pudéssemos saber de qual violência tratamos quando instituímos.

Esta analítica da experiência, em questão na série das casas minimais, que julgamos relevante denominar de uma analítica das cores, mais do que uma analítica das formas, não pode deixar de ser feita numa dimensão pictórica das formas em escultura. Porque antes das cores serem colocadas em questão é preciso que sejam colocadas desde a dissolução do dentro e do fora. É importante que as cores sejam investigadas na forma, e alguma coisa de especial é dito quando as cores estão encima das formas: em formas que suportam cores, as cores são colocadas como que em ampliação da capacidade inscritora e significativa. Para isso, precisamos falar das cores da experiência.

Bechara deixa bem claro na série Open house, como de todo De Kooning também o fez, que a experiência lida, essencialmente, com duas cores: o preto e o branco. Isso não tem que ver com jogos de opostos. A experiência lida com o preto e com o branco em virtude do caráter de sobreposição dos planos pictóricos. Eles não se anulam ou se superam, mas estabelecem camadas de inscrições e mudanças de significação. Bechara escolhe, para analisar os efeitos de constituição, e se trata mais de rendição à experiência do que uma deliberação, uma série de casas pretas. A mais forte de todas é BlackBlack.

BlackBlack é composta pelo bojo da casa e de seus objetos expulsos. Ela tem três aberturas, cada uma em uma lateral da obra, e das faces que ficam expostas, apenas duas são plenamente fechadas. Dessas aberturas escultóricas – que pelo desaparecimento do dentro e do fora, melhor seria que chamássemos de fendas –, duas atingem o chão, imitam o diagrama de portas, e uma o diagrama de uma janela. Dos objetos expulsos temos pequenas mesas e pequenas escadas (as quais podem ser vistas como estantes). A primeira pergunta que podemos colocar é: o que alguém faria com tantas mesas e escadas – estantes – e nenhuma cadeira?

Com efeito, perceberíamos que, ao contrário da série fotográfica Paisagem doméstica – a qual representa a fase inicial do projeto A casa –, não parece que os objetos estejam sendo expulsos – aquela forma de expulsão possível apenas quando os objetos são meticulosamente colocados do lado de fora, na marca da saída –, mas que estão sendo colocados goela a baixo. BlackBlack não é um vomitório, mas uma glutonice. A sensação de que os objetos são vomitados, ou de que os objetos são deglutidos, aponta sempre para um mesmo problema: uma vez que a casa é feita numa imagem escultórica, sem dentro, nem fora, de onde podem surgir os objetos quando parecem vomitados? Para onde vão os objetos quando parecem que são deglutidos? Apenas em Paisagem doméstica os objetos saem, ou voltam, para algum lugar, porque apenas no início do projeto A casa havia a angústia de transfigurar casas em imagens-casa. Na série Open house, e BlackBlack é o prelúdio dessa série de esculturas, da forma como vemos, entradas e saídas não são senão setas para uma sensação estacionária: para a analítica da série Open house é necessário, até onde possível, interromper o tempo.

BlackBlack, na verdade, não tem portas ou janelas, ela tem fendas, instituídas na angústia do tempo, para congelar um instante sem tempo. Essa casa minimal, e nunca uma miniatura de casa, fala da tinta capaz de escrever as experiências no tempo, passível de ser notada quando colocamos as casas, pelo minimalismo, entre parêntesis.

*

Da analítica do preto promovida por essa cristalização pictórica – essa evidência de que a experiência se escreve pela cor preta sobre a cor branca, e que as fotografias de BlackBlack feitas por Everton Balardin conseguiram mostrar tão bem –, deixemos gotejar um pouco d’água, com quem goteja uma escritura negra num caderno de folhas alvas. Deixemos que algum efeito de pastiche seja exercido, e não teremos mais BlackBlack, mas Preta, Preta com preto, Preta com amarelo, Preta com vermelho, Preta com verde, Duas cabeças com preto e uma forma de branco reconhecido pela alvura – teremos Alva.

Do gotejamento sobre a escritura da experiência, Bechara permite que o tempo volte, mas não volte todo, e nem de uma vez. Do gotejar sobre a escritura da experiência, Bechara permite, sem controle sobre a matéria pictórica, mas em espaço escultórico determinado, que a experiência possa dizer a significação do tempo.

Em suma: o tempo oxida BlackBlack e a transfigura em Preta e todas as suas variações. O tempo, como gotícula d’água sobre a tinta preta, revela a oxidação das casas. Preta permite que o tempo passe – não o interrompe como faz BlackBlack –, mas não todo e, muito menos, não em sua velocidade ordinária. Se o tempo parava para nos mostrar como se escreve a experiência, agora o tempo passa sem pressa, para tornar explícitas as variações dessa escritura. Porque se tratam de formas amenizadas de regularidades – de constituições, portanto –, Bechara permite certo jogo com as variações.

Em Preta com preto, a escritura sofre a ação do tempo, então, oxida a imagem, mas logo uma nova interrupção antiexperiência é acrescentada, a obra é contraposta a um cubo: o tempo-experiência é suspenso nas fendas. Com o cubo, o tempo se disfarça de não-experiência e pode passar, escritura em óxido, apenas no bojo da casa, nos objetos e na estrutura do cubo. Preta com amarelo mantém o padrão de Preta com preto, mas inaugura uma nova cor, uma cor que não é instituição no plano pictórico, mas cor regular, o amarelo. A cor envolve o cubo, dizendo que ali o tempo não pode passar devagar, em óxido, mas que deve transcorrer como em todos os lugares. O amarelo faz com que a analítica da experiência da imagem também tenha que sobreviver diante do ordinário, do comum. O procedimento é repetido em Preta com vermelho e Preta com verde, a mais bela das casas minimais que dialogam com as cores ordinárias.

Duas cabeças com preto torna o deslocamento da duração do tempo ainda mais sofisticado. São duas casas minimais que temporalizam em oxidação ferrosa, sendo que uma das casas é abraçada por um cubo pintado de preto. A analítica das cores, e da relação com o tempo, abre espaço para o jogo de ironias: entre experiência e não-experiência. Bechara usa a cor da experiência no tempo, isto é, a oxidação, pinta de BlackBlack o cubo, signo da não-experiência, envolve, com essa ironia, uma das casas, como quem diz: apesar das idéias abstratas, a saber, da não-experiência, o tempo passa: as imagens duram.

*

Por fim, para completarmos esses comentários à analítica do preto e do branco, na série Open house de Bechara, falta-nos escolher uma casa minimal capaz de manifestar o significado do branco na experiência. Se a cor preta é inscrição, marca, grito sobre o plano pictórico da experiência – estabelecido por ações de violência –, o branco exerce a significação, a disponibilidade, o preenchimento, sem nada ter que ver com simbologias ou com oposições. Isso significa que o branco está sempre aí disponível para a inscrição, como uma folha de papel é disponível para que alguém se aventure para nela escrever, ou como um corpo é sempre disponível para ser tatuado. Mas o aí do branco se mostra desde a inscrição. Não podemos barganhar com a experiência; nem por medo e nem por desejo. A alvura desta última casa minimal é pura disponibilidade.

A Alva, como boa parte das casas, é composta de três aberturas, ou fendas, como preferimos dizer, e delas são deglutidas e cuspidas mesas e estantes. Um grande cubo de madeira completa a composição da escultura. Alva não é composta pelo preto, o que significa que não consiste numa inscrição, mas numa pura significação. Alva não interrompe o tempo por razões de analiticidade; mas também não deixa o tempo passar: pelo menos não segundo o modelo da oxidação ou das cores dos acontecimentos ordinários. Alva é o espectro de todas as casas minimais, como BlackBlack é a instituição, pois fala de um tempo que não pode ser interrompido pelas razões analíticas, que não pode ser atrasado pelas razões das oxidações, que não pode ser universalizado pelas razões geométricas e que não pode ser miniaturizado pelas razões das cores ordinárias: o tempo de Alva é a cotidianidade: espécie de sombra branca por detrás das coisas.

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