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Posts from ‘March, 2009’

esse maldito lunático

(II)
sempre me perguntei: onde esse maldito
lunático escreveria se suportasse o
quarenta e três (?) por certo, escreveria
sobre o corpo, talvez com algum pedaço
afiado de pedra. não deixa de ser
tolo escrever sobre o corpo. porque todos escrevemos
no corpo. é o primeiro alfabeto.
mas nas mãos de um lunático.
lúcido. é impossível dizer o estrago que
teria causado. impossível de dizer.
impossível [...]

duplicidades

duplicidades
para Guga Alayon e Lorena
para todas as coisas
que sigo: desperto.
para todas as coisas,
desperto, não ligo.
objetos, assim, tão
preferidos, mendigo.
***
grito de longe, ai que grito,
grito de perto, ai que grito.
mas se escuta de longe?
mas se escuta de perto?
pois bem, que me deixe dormir.
de longe. de perto. chamado e dormido.
***
há pessoas que sigo e não me seguem.
há pessoas [...]

do nascimento dos meus olhos

do nascimento dos meus olhos (2)
os olhos tinham duas cores.
duas cores por lado.
ou quatro cores.
duas cores por lado.
os olhos eram como olhos de mosca.
ou oito cores.
duas cores por lado.
os olhos eram como tigres.
duas cores por rajada.
os olhos eram como gotas.
dois pingos por globo.

A posição tradicional sobre o tema da perversão

No Caderno Mais da Folha de São Paulo o psicanalista Renato Mezan aborda a sua concepção bastante tradicional da temática da perversão sexual, utiliza como exemplos os últimos casos midiáticos de incesto, pedofilia e estupro.
PREDADORES PSÃQUICOS
RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA
Os casos de pedofilia e incesto recentemente noticiados pela imprensa -a menina engravidada pelo padrasto em Alagoinha [...]

por medo de morrer de casa

dos que me servem chá. dos que me servem café. eu lingüinha
um pouco da xícara. mas que nojeira. mas não queimo
a língua. se. nas garras da coruja voou meu olho.
talvez não possa dizer que seja cego de um olho.
mas que tenho um olho voado. e esse olho que resta.
que não voa. talvez seja um [...]

um i de chapéu e um ponto

para me esconder do sol.
fico parecendo um i de chapéu e um ponto: î .
não passo protetor nos livros.
e o ponto?
azeitona, meu cachorro.

Fabio Cardoso: a nudez e o âmbar

Alguma coisa deve ser dita sobre o tempo, mas para que alguém possa dizê-la é preciso compreender os ardis do tempo. O primeiro dos ardis é que o tempo não pode ser interrompido. Ele marca o ritmo da experiência. Ele se confunde com a própria experiência. O segundo dos ardis é que o tempo pode [...]

não há nada no mundo que não seja tela

da nudez que somos capazes de ver é guardado apenas um pequeno
trapo de limpar a tinta pelos lados. resta sempre um corpo nu. bastante nu.
e nunca é o bastante para toda tinta de que se é capaz de lambuzar
um corpo nu. e se a nudez pode estar na parede. ou no chão.
aplicam-se dentadas bem sofridas. [...]

Cézanne: apavoramento dos olhos semicerrados

Paul Cézanne
Afternoon in Naples
L’Après-midi à Naples
1872–75
oil on canvas
30.0 x 40.0 cm
Collection of Lucian Freud
Paul Cézanne
Afternoon in Naples
L’Après-midi à Naples c.1875
oil on canvas
37.0 x 45.0 cm
National Gallery of Australia
Purchased 1985

Lucian Freud: certo apavoramento dos sentidos

After Cézanne. Óleo sobre tela. 1999-2000.

Saudades de Piaf: Sentimento apavorado

Sentimento apavorado
I
A melodia triste ao fundo
entoa o canto do bom piano nostálgico.
Um velho instrumento.
Com o entoar da bela moça:
faz-se vivo
em sua voz.
Sempre que dizes que o amor é algo,
vejo tristeza, não uma tristeza feia;
mas sim o gosto de lembrar dos tempos
de poucos anos.
Tu que és de todos nós, que um dia,
ao soprar do vento na [...]

José Bechara: da casa aos estilhaços de açúcar-imagem

José Bechara: da casa aos estilhaços de açúcar-imagem
A casa é um objeto-fenômeno difícil de ser definido. Ela não é simplesmente um conglomerado de materiais, como também se distingue de um conglomerado de afetos. Não é simples ter uma casa. Não é simples construir uma casa. Não é simples destruir uma casa. Assim, o processo que [...]

José Bechara: analítica do preto e do branco e suas cores

José Bechara: analítica do preto e do branco e suas cores
[este artigo tem como referência a obra Blefuscu, de José Bechara
(Santiago de Compostela: Artedardo, 2008)]
Se com a série de fotografias Paisagem doméstica ou não me lembro do que dissemos ontem Bechara inaugura a abertura para a transfiguração de sua obra; a capacidade de ser compreendida [...]