O pensamento (pensador) selvagem
O argumento básico do O Pensamento Selvagem de Lévi-Strauss é a presença de pensamento onde julgávamos existir espécie de existência sem significado. Claro que a vedação ao etnocentrismo é necessária, mas não precisamos ver a pluralidade para sermos disponÃveis a pluralidade. Os selvagens, de um modo geral, pela forma conceitual pela qual a filosofia se organizou, não poderiam ser considerados pensadores, mas o que Lévi-Strauss demonstrou foi que, apesar da inexistência de conceito, os selvagens organizavam relações lógicas, transformavam induções em deduções e formavam mecanismos indutivos se desejavam intensificar a linguagem. Da mesma forma como eram capazes de dar um nome geral para uma série de fenômenos semelhantes, também eram capazes de lidar com seres semelhantes como se fossem únicos, apenas para intensificar os efeitos da linguagem: os selvagens, de modo pouco comum no ocidente filosófico, poderiam optar pela criação de formas de pensamento com estrutura de individuação para plenificar o singular.
Não sem interesse cem anos atrás nascia Lévi-Strauss em Novembro de 1908. Hoje, cem anos depois, completa um ano O Pensador Selvagem. No mesmo espÃrito do O Pensamento Selvagem existem muitas formas de pensamento distintas abrigadas sob a mesma proposta. Assim, não cometerei o crime do ocidente filosófico, não abrigarei sob categorias muito amplas elementos que devem ser plenificados pelo singular. Por isso, darei de presente ao grupo de pensadores que abriga a minha coluna e o meu blog uma pequena distinção, corrigindo crimes cometidos pela filosofia, mas resguardando a força da capacidade de pensar por conceitos. Farei uma pequena distinção entre o pensador selvagem e o pensamento selvagem, não uma distinção entre as obras, mas uma distinção entre a acepção conceitual desses nomes.
Antes de tudo: para podermos pensar com alguma selvageria – uma vez que a selvageria é tomada como virtude – devemos abandonar a distinção entre pensar por conceitos e pensar por imagens. As filosofias da consciência e as filosofias da experiência-imaginação se distinguem nesse ponto. Nas filosofias da consciência o pensamento recorre à imagem quando não pode rivalizar com a universalidade, o pensamento pelo conceito é um pensamento para o infinito e o pensamento pela imagem é um pensamento para a finitude. Numa certa dimensão cética, contudo, as filosofias da experiência-imaginação admitem que existem formas distintas de imagem: imagens visuais e imagens conceito. Qual a diferença? Nas filosofias da consciência a experiência é alguma coisa a ser suplantada e nas filosofias céticas da imaginação a experiência é a única forma de estabelecer relações de pensamento. Nessa acepção o infinito não é uma substância, mas efeito de ficção utilizado para expressar a incomensurabilidade do tempo.
Existem, na perspectiva da imaginação, duas formas de imagem: imagens visÃveis – aquelas que precisam ser vistas, cheiradas, tocadas etc. e imagens visuais – aquelas que precisam ser repetidas no tempo, alteradas pela composição de idéias e recolocadas na experiência para colonizar o mundo com as suas significações. O conceito, por sua vez, é uma imagem visual e não uma imagem visÃvel. Qual o pressuposto de um pensamento selvagem? A visibilidade da pluralidade ou a visualidade da pluralidade? Para que a visibilidade possa ser vista é preciso que exista um espÃrito impressionável. Assim, o pressuposto para que exista um pensamento selvagem é um pensador selvagem absolutamente tocado pela delicadeza da imagem que permite ver aquilo que não existe, ainda.
Eis a distinção oferecida como presente para essa nossa selvageria: o pensamento selvagem são formas intensas de movimentar o pensamento e o pensador selvagem aquele que transfigura a intensidade na carne. Não é preciso que a selvageria seja visÃvel, pois sua natureza, antes de tudo, habita na visualidade: uma certa crença de que o mundo são muitos mundos e que o pensamento é um modo de acrescentar imagens na pictorialidade da experiência.









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