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A crise financeira e a economia real: um delírio

A crise financeira e a economia real: um delírio.

Existe uma grave crise financeira e os bancos estão em greve. Contudo, o momento mais propício para se pedir algum tipo de reajuste é no período de vacas-gordas não divididas. Sempre vimos desse jeito na ação dos grupos de metalúrgicos. A crise financeira é uma crise de confiança. A inadimplência de alguns mercados torna os investidores desconfiados acerca da saúde das instituições financeiras: então o que fazem? Os investidores especulam, ficam nervosos, procuram um jeito de ganhar dinheiro quando os outros perdem, em suma, eles tiram o dinheiro de um lado e colocam no outro. Fazem isso nas bolsas de valores, as quais são grandes praças de circulação de opiniões em forma de dinheiro. Mas digamos que eu tenha dinheiro, tomado pela crise de confiança que estou, quero correr de um lado para o outro com o meu dinheiro, pode ser em círculos, ou seja, e se eu quiser transformar a minha opinião em dinheiro circulante, eu posso? Digamos que eu tente, a minha primeira ação é sair de casa e ir para o caixa eletrônico mais próximo e sacar o meu dinheiro, para que a contigüidade entre a minha opinião e a disposição monetária possa ser exercida. Mas não conseguirei ir muito longe, porque por razões de segurança, e conveniência, não posso sacar muito mais do que algumas centenas de reais.

Então, corajoso da minha função especuladora na economia real. Botarei fogo especulativo nos verdureiros, guardadores de carros, donos de sapataria, pelo movimento do meu dinheiro: - vejam, estou especulando, não sei para onde o meu dinheiro vai, mas vou gastar tudo em figurinha, vendê-las e ganhar mais do que vocês, então, eles desconfiam ou correm atrás de mim. Mas não posso, porque o diabo no meu corpo encontra o empecilho da porta fechada do banco. Mas, então, parece que é interesse financeiro manter as portas fechadas, para que a crise de confiança não imploda a economia real. Mas quem fez a greve foram os funcionários. Parece que a greve não é de interesse dos trabalhadores, mas dos setores financeiros. Uma pesquisa de exemplaridade poderia ser feita com as avós do Brasil, aquelas de boa memória. A resposta mais freqüente é que crises financeiras no Brasil são acompanhadas com a greve dos funcionários dos bancos.

Existe alguma importância isolada para esse fato? Creio que não, mas existe a contraposição entre economia real e mercado financeiro. Pela atual diagramação do mercado contemporâneo, ao contrário da configuração tradicional, o mercado financeiro é a experiência mais intensa e a economia real é a experiência mais branda. Numa inversão digna de atenção, porque vivemos todos os dias as pequenas compras e o regime de salários da economia, mas descansamos nossos olhos sob a rede das informações da especulação financeira. Pela configuração contemporânea os fluxos financeiros são o oceano, ou a baía, e a economia real é a pequena piscininha de plástico onde brincamos. Mas o isolamento da economia real não é acidental, se pudéssemos localizar a grande potência especulativa de algum lado, esta não estaria do lado dos grandes investidores, mas dos pequenos gastadores. A estratégia de crise é impedir que o ceticismo dos investidores possa ser utilizado como parâmetro para o ceticismo dos pequenos gastadores. As economias soberanas conseguem diálogo relativamente direto com o sistema financeiro, porque existe uma mesma língua que pode ser falada, para aplacar a corrida em círculo. A crise de confiança, por outro lado, ao alcançar os pequenos gastadores produz efeito devastador: - Não sei porque estou correndo. Por favor, me digam alguma coisa que me faça parar. Não entendo o que me diz, e não compreender me assusta. A porta fechada dos bancos impede essa crise devastadora produzida pelo medo na não compreensão. Mas por que os bancos não fecham as portas em países mais ricos? Porque ou a população possui alguma participação no mercado financeiro, participa da estrutura delirante, ou participa do jogo lingüístico que compreende a necessidade do mercado financeiro, adere ao delírio.

Não existe tanto problema em convencer os padres e os intelectuais da não existência de Deus, mas se o argumento rebate nos pequenos crédulos, temos o desabamento institucional, pois não há língua para demonstrar a existência recomposta. Não existe tanto problema em convencer os financistas, uma vez que o argumento de estabilidade é governamental, da não existência de uma crise, mas se os pequenos investidores e gastadores são convencidos da existência da crise, então, temos uma forte potência de destruição.

Não estou convencido sobre a pregnância dos delírios. O delírio financeiro está localizado na evidência de sua precedência com relação à economia real, aos pequenos. O delírio econômico está na evidência de que a produção, a indústria, o investimento e a compra são precedentes à especulação. Estamos num mundo de delírios – dimensões estruturais sobre o que é a experiência – e não num mundo de alucinações – acréscimo de elementos significativos à experiência. Por isso, não sabemos a origem de nossos delírios, e, talvez, a maior façanha do delírio financeiro consista no convencimento de que a economia real é real.

Ao pensarmos esses eventos de modo cético e construtivista chegaremos à conclusão da necessidade de ultrapassamento retórico dos jogos de delírio para a confecção da possibilidade de contigüidade entre mundos. Com efeito, a precedência da economia real sobre o financeiro é delirante, bem como, a precedência do financeiro sobre a economia real, esse jogo é delirante e dogmático porque pressupõe que uma estrutura de suspensão e divertimento significativo explica todo a experiência capitalista. Pois bem, o capitalismo é por demais perigoso para ser admitido enquanto delírio; no máximo podemos suportá-lo enquanto alucinação: - alguém que não podemos ver, ou escutar, ou sentir, mas que está sentado na mesa de jantar, com a capacidade de resignificar todo o quadro pictórico em que habitamos. Para o combate a uma resignificação dogmática é preciso que haja o esforço de batalhas de mundos, conflitos acerca das modalidades de construção de mundos, não para uma dilaceração dialética, mas, sob o princípio da igual liberdade para todos, permitir a experiência da pluralidade de mundos. Ao precisar de alguma alegoria para dizer o que gostaria, por certo, e antes do silêncio, remeteria ao conto O tigre Fortuito de Felipe de Amorim.

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