Ceticismo e aprendizado da morte em Montaigne e Hume
No Fédon de Platão a questão da morte é um problema central. O confronto entre SÃmias e Sócrates dá-se no sentido de pensar se a morte está no corpo, enquanto tensão de elementos desarmônicos, harmonizados pela vida, posição de SÃmias, ou se a morte está na alma: no sentido que deve ser vencida: pelo não temer a morte. A associação entre vencer o medo da morte e a atividade filosófica é naturalizada por Sócrates. Na escritura dos ensaios também a morte é uma questão. Nossa investigação tem como objeto perceber a dimensão conceitual da morte nos ensaios de Montaigne e nos de Hume. De maneira a responder as seguintes perguntas: (1) para o cético a morte é um problema filosófico? (2) No caso de afirmativa a resposta: qual a relação, para o cético, entre a filosofia e o medo da morte? (3) Existe alguma relação entre o pensamento da morte e a crueldade? Respondendo a esses três questionamentos julgamos ser possÃvel estabelecer a relação entre a reflexão cética e a dimensão polÃtica da experiência morte. Assim, a percepção cética da morte traria uma nova abordagem da temática da morte, bem como, sobre os sentidos da vida: no sentido individual (ensaio de Hume sobre o suicÃdio), no sentido coletivo (ensaio de Hume sobre a imortalidade da alma) e para a criatividade filosófica (ensaio de Montaigne sobre a filosofia como aprendizado da morte). O diagnóstico do ceticismo parece apontar para a localização da morte no corpo, muito embora o seu sentido completo seja eminentemente social, de modo que o enfrentamento individual do medo da morte permite que a relação com o outro seja preservada: pois a coragem diante da morte estabelece modos de compreensão sobre o medo do outro. A crueldade surge como necessidade de pensar a morte para além das hipóteses de imortalidade da alma, como espelhamento da própria morte e de possibilidade da perda dos amigos e dos inimigos. A prática cética diante da morte é uma prática cruel: na medida em que, ao romper com as superstições, expõe a natureza humana, e sua sociabilidade, ao medo do desaparecimento. Contudo, a prática cruel é o fundamento do respeito da possibilidade do medo e da outro. A prática filosófica, como enfrentamento do medo da morte, configura o modo como as crenças são estabelecidas, outrossim, a formação das instituições polÃticas. A instituição que não enfrenta o medo da morte permite a prática da morte, a instituição que enfrenta o medo da morte, impede a prática da morte, pois realiza modos de não temer o outro.









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