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Partidos políticos e sociabilidade

Partidos políticos e sociabilidade

Os sentidos da esquerda contemporânea são bastante ambivalentes. Alguns analistas de política brasileira, via de regra os não muito espertos, reclamam do fato de não haver um movimento de direita na política nacional: o que significaria um problema para o jogo político. A direita pode ser associada a muitas coisas: em uma direita branda temos questões como: tradição, família e conservação das relações sociais de um certo tipo (ou que as mudanças sejam mais lentas), do lado de uma direita mais radical: perseguição de grupos minoritários, controle recrudescente de imigrantes e diminuição da função do Estado na promoção de instituições sociais. Não estou a invocar os totalitarismos de esquerda ou de direita, porque esses não são ficções legítimas para a condução da esfera pública. Então, no Brasil não teríamos uma direita? O fato dos países sul americanos terem passado por ditaduras bastante desagradáveis cria alguns impedimentos para uma retórica da direita, mas isso em uma retórica partidária, o que não significa que não tenhamos práticas sociais, como as de perseguição de grupos sociais mais vulneráveis e o uso do Estado para manter relações de poder tradicionais, que não possam ser classificadas como práticas sociais de direita. De um modo irônico seria engraçado dizer: melhor uma direita partidária do que uma direita na prática social. Mas somos um grande país de direita: nada mais de direita do que a manutenção institucional das segregações sociais: a inexistência de um imposto para grandes fortunas é o grande sintoma. Contudo, não termos uma retórica partidária de direita não é nenhuma grande ausência. O regime de seleção das opiniões na esfera pública nos mostra que uma direita partidária não tem qualquer relevância. Precisamos é de um debate político menos centralizado e administrativo, para migrarmos para debate político focado na figura das sociabilidades. Os partidos são relevantes nos debates administrativos. Mas não suprem a percepção de que a sociabilidade não é partidária.

Nas últimas semanas, e essa já era uma morte anunciada, vimos a grande crise pela qual passa o trabalhismo inglês tomar corpo. O partido Trabalhista, do primeiro-ministro Gordon Brown, perdeu mais do que 300 cadeiras nos conselhos locais; além de também ter perdido a prefeitura de Londres. A queda de Tony Blair – o qual renunciou, em Junho de 2007, depois de 10 anos no poder, com a consolidação da paz com a Irlanda do Norte no currículo – significa parte do enfraquecimento do partido trabalhista, o qual se completa agora. A política de esquerda na Inglaterra, ao contrário da política de esquerda da Espanha, foi bastante bélica: deu suporte às invasões norte-americanas. Os conservadores estão chegando, novamente e gradativamente, ao poder na Inglaterra. Pois se os trabalhistas, que são os promotores da paz, fazem a guerra, como os conservadores, por que não recolocarmos os senhores da guerra no governo? Os partidos trabalhistas que não são internacionalistas são na verdade partidos conservadores. Porque a conservação das estratégias de dominação passa pela retórica de regionalizar a questão do trabalho. A Inglaterra defendeu muito bem os seus interesses: fez reformas trabalhistas, estabeleceu tarifas de proteção, enrolou o quanto pode a União Européia e fez guerra para defender interesses geopolíticos. Trata-se de uma política conservadora. Como disse: não há necessidade de partidos de direita para se assumir políticas conservadoras. As questões da sociabilidade são maiores do que os partidos.

A estrutura política das democracias é a forma pela qual a política deve ser feita. Sempre que se inventou outra coisa, pelo menos desde a modernização dos Estados, tivemos alguma sorte de problemas. Os partidos políticos são engrenagem fundamental e necessária da estrutura política da democracia. Mas é tolice acharmos que os partidos são formas com conteúdo. Os partidos são forma cujo conteúdo é retórico. A relação entre a retórica enunciativa e prática dos partidos é meramente factual. Por isso não faz falta um partido conservador. Sempre existe algum movimento conservador na vida social. Deve-se atentar para o sentido de sociabilidade exercido pelos partidos. E no caso da Inglaterra o sentido de sociabilidade é claramente conservador, e beligerante na esfera geopolítica, enquanto que o trabalhismo brasileiro é conservador na contenção da miséria, mas de esquerda na concepção internacionalista do trabalho.

Cesar Kiraly (http://cesarkiraly.wordpress.com)

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0 Comments on “Partidos políticos e sociabilidade”

  1. #1 Rogério Silva
    on May 8th, 2008 at 1:35 am

    Oi Cesar,
    Pelo que me consta o Brasil sempre teve uma política conservadora e de direita desde o reinado e o império.
    Se você fala em direita, pressupõe-se que existe esquerda e quando você diz que os partidos políticos são a engrenagem fundamental e necessária da estrutura política da democracia, e que é uma tolice acharmos que os partidos são formas com conteúdo, eu também te acompanho. Mas que os partidos são formas cujo conteúdo é retórico eu já tenho dificuldade de acompanhar, talvez por que eles migrem muito em conteúdo.
    Veja por exemplo Fórum de São Paulo. Foi criado em 1990, com a finalidade de combater o neoliberalismo na América do Sul e o que se vê é o neoliberalismo imperando desde o governo FHC e fundamentalmente no atual, aqui no Brasil.
    Como pensar no fórum de São Paulo, sem a hegemonia de Fidel Castro em Cuba e com umas “bestas” instituídas como Evo Morales e Hugo Chaves.
    Os países da Europa são mais antigos, enfrentaram cataclismos, guerras e modificações sociais de muitas ordens, por isso podem exibir uma postura mais conservadora tanto na forma de governo, quanto no modo de pensar do povo. Mas a América do Sul é nova, sem dor na própria carne, talvez nem toda a America, mas o Brasil certamente.
    Não te parece que uma sociedade conservadora tende à estagnação? Maio de 68 na França, os anos 68 no Brasil. São questões que ainda esperam muitas respostas.
    Como te parece?
    Um grande abraço
    Rogério

    [Reply]

  2. #2 ckiraly
    on May 9th, 2008 at 12:08 pm

    Oi amigo Rogério,

    eu concordo com você. Então, ao invés de responder, acho que vou pensar a partir do que me diz. Julgo que a política tende ao conservadorismo, da mesma forma como o poder tende a concentração, e o exercício do poder tende ao autoritarismo etc. Acho que o Brasil sempre foi e continua sendo um país conservador. Pois se a política tende à conservação é preciso que movimentos de sociabilidade invistam, inclusive emocionalmente, contra a estratificação das estruturas sociais. No Brasil a política sempre acontece de um modo conservador e os movimentos que investem contra a ordem conservadora, conseguem fazer o que não é espontâneo, fazem com que poder proteja a sua capacidade de concentração. A política no Brasil só é mobilizada contra os movimentos de invenção social. Por isso digo que os partidos políticos são formas sem conteúdo, formas necessárias, mas sem conteúdo, e por isso de conteúdo retórico, porque a tábua de valores defendida por um partido não significa nada na constituição de sociabilidades. Mas pode vir a significar se o partido adota retórica, e práticas evidentemente, de transformação social em virtude dos valores defendidos. No Brasil os partidos, ainda, são formas cujo conteúdo, retórico por excelência, muito pouco mobiliza valores, e, pela admissibilidade social de que vale tudo no jogo do poder, os partidos são formas retóricas vazias. O governo de esquerda absolutamente conservador, em alguns aspectos, demonstra os meus argumentos.

    Um abraço,

    Cesar

    [Reply]

  3. #3 Rogério Silva
    on May 11th, 2008 at 2:05 pm

    Olá meu amigo
    Pensei em fazer um novo comentário a esta postagm, mas acabou virando uma postagem no meu blog http://freudexplicablog.blogspot.com/2008/05/retrica.html
    um grande abraço
    rogerio

    [Reply]

  4. #4 Rogério Silva
    on May 11th, 2008 at 2:08 pm

    Oi César
    Eu quis fazer um comentário, mas acabou virando um post em http://freudexplicablog.blogspot.com/2008/05/retrica.html
    um grande abraço
    Rogério

    [Reply]

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