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Isabella e João Hélio

Isabella e João Hélio

Nesses dois últimos anos assistimos a dois grandes casos de comoção pública em virtude do assassinato de crianças. O primeiro foi o esquartejamento do menino João Hélio, no Rio de Janeiro, e o segundo a queda, provocada, da menina Isabella. A não ser o fato de serem profundamente tristes – de um modo geral nos causa muito sofrimento ver crianças morrendo, e se causas naturais de morte, como doenças e acidentes, fazem-nos sofrer (muito embora seja mais fácil nos resignarmos), as causas provocadas pela violência nos perturbam ainda mais – esses dois casos não têm muito em comum. Pode-se dizer que são duas crianças de classe média. Se argumentar que nos resignamos com mais facilidade com a morte por doença ou acidente, não tenho tanta certeza de estar sendo sincero. A indignação que vemos é semelhante com o interesse em uma dramaturgia, muito mais do que com algum tipo de adesão moral. Tenho escutado vários tipos de piadas. Até mesmo que o assassinato da menina Isabella foi provocado pela ministra Dilma. Quero dizer que de modo geral, brasileiros de todos os matizes, tornaram-se incapazes de adesão ao sentimento da dor do outro. Assim, como a ladainha dos intelectuais tem aventado, todos os dias, em nossa sociedade, crianças, em número bastante elevado, são mortas barbaramente, desde a violência no confronto policial até a mortalidade do nascimento, passando pelas crianças vítimas da violência ou vítimas de doenças (quero indicar a morte de crianças por doenças que uma simples política de medicina sanitária seria capaz de evitar). É evidente que somos indiferentes a esses tipos de mortes. Indiferentes porque sabemos, indiferentes porque nada fazemos e indiferentes porque esses números não nos tiram o sono. A morte por assassínio, dessas duas crianças, o menino João Hélio e a menina Isabella, não interrompem o ciclo de indiferença no qual fomos lançados. Apenas acompanhamos, interessados, o uso em drama feito pelos meios de comunicação de massa ou de comunicação seletiva. Uma dramaturgia que envolve cartas, fotos, vídeos, recomposições com bonecas e toda sorte de artifício. Mas por que chamo o movimento, de comoção pública com esse fato, de dramaturgia? Porque a dramaturgia não é a adesão a uma dor, mas a adesão a uma história com fatos obscuros, como em uma novela. Mas o que me leva a definir a comoção pública, com o assassínio da menina Isabella, como uma dramaturgia, e como estado de indiferença?

O que nos leva a aderir moralmente a um determinado caso? O que nos faz sermos capazes de nos importar com a dor do outro? Por que sofremos ao ver alguém sofrer? Essas perguntas podem ser respondidas de muitas formas, vou optar por um tipo de resposta. Aderimos quando somos capazes de nos identificar com o acontecido. O que significa que aderimos moralmente quando nos sentimos próximos ao acontecido ou quando pensamos que poderia acontecer conosco. Esses dois elementos seriam a composição, grosso modo, de uma adesão moral autêntica. Pensemos no caso da menina Isabella (ou do menino João Hélio): (1) o requisito da proximidade está presente (a morte bárbara de um chinês me dói menos do que a morte de um brasileiro, ou de um carioca, ou de um paulistano etc) e (2) poderia acontecer com um nosso filho ser barbaramente morto, ou em um incidente de violência urbana ou em um evento passional. Mas ainda assim afirmo que somos indiferentes. Por que insisto no argumento, partindo do princípio de que os requisitos que estabeleci estão presentes? Porque as crianças pobres barbaramente mortas, no sem número de eventos evitáveis da sociedade brasileira, também preenchem os requisitos: (1) impossível que não se conheça um sem número de pessoas pobres brasileiras que tenham passado por histórias horrendas, ou seja, são próximas (além do mais, partindo do princípio que a classe média brasileira é ascendente: cidadãos de classe média, ontem, eram pobres) e (2) a pobreza pode nos acontecer a todos, cidadãos de classe média, bem como os efeitos da pobreza podem nos acontecer a todos, mortes violentas, desrespeitos à legalidade, confrontos entre marginais e outras coisas: sem falar nas doenças provocadas por falta de política de saúde pública.

Pois, se as mortes de pessoas pobres, no Brasil, são tão próximas quanto as mortes de pessoas de classe média, ou brancas, ou ricas etc. não podemos dizer que a distinção do sentimento, com relação a cada tipo de morte, seja a presença da adesão moral ao primeiro evento e falta de adesão ao segundo. Pois frente ao preenchimento dos requisitos deveríamos nos comportar da mesma forma. O que é diferente? Não aderimos a nenhum dos eventos. A nossa adesão moral é nula. O sofrimento pouco nos importa. Tornamo-nos uma sociedade da felicidade cotidiana e do descaso com a dor do outro. Aderimos a um evento porque nos interessamos dramaturgicamente por ele; e isso acontece porque o tratamento dos eventos é dramatúrgico. Se não houvesse tratamento dramatúrgico, da morte evitável, talvez não nos importássemos com nenhum tipo de morte, a não ser a de nossos entes queridos, familiares e amigos próximos. E isso é moral? Uso o termo moral de modo bastante grosseiro. Por certo, não é moral. Tornamo-nos uma sociedade onde a dor do outro é absolutamente opaca e os sentimentos morais, na vida pública, não nos dizem quase nada. Com efeito, ou aprendemos a sentir, novamente, ou continuaremos incapazes de evitar toda sorte de morte passível de ser evitada. É possível ensinar a sentir?

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0 Comments on “Isabella e João Hélio”

  1. #1 Rogério Silva
    on Apr 22nd, 2008 at 1:07 pm

    Cesar, meu amigo
    Quem matou Odete Roitman, ou quem matou Isabella? Parece não haver diferença quando se trata da exposição pela sociedade espetáculo.
    A sua explanação nos deixa sem fôlego e a pergunta final fica sem possibilidade de resposta.
    Nestas horas eu acho importante trazer François Marie Arouet, o Voltaire (1694-1778) que viveu numa época que não existia a mídia moderna. Sem dúvida alguma, “Cândido ou o otimismo” deveria ser lido mais hoje em dia com o espírito da época, quando não havia a mídia moderna. “O que acontece é sempre o melhor possível”, diria Pangloss e Cândido perseguiu esse princípio sem nunca atingi-lo.
    Voltaire foi um teórico sistemático, mas um propagandista e polemista, que atacou com veemência todos os abusos praticados pelo Antigo Regime. Tinha a visão de que não importava o tamanho de um monarca, deveria antes de punir um servo, passar por todos os processos legais, e só então executar a pena, se assim consentido por lei. Se um príncipe simplesmente punisse e regesse de acordo com o seu bem-estar, seria apenas mais um “salteador de estrada ao qual se chama de ‘Sua Majestade’”.
    Defendia a submissão ao domínio da lei, baseava-se em sua convicção de que o poder devia ser exercido de maneira racional e benéfica.
    Os séculos passaram e continuamos na mesma.
    Abs rogerio

    [Reply]

  2. #2 ckiraly
    on Apr 24th, 2008 at 2:25 pm

    Olá meu amigo,

    o conflito entre paixão e moralidade é enorme. Mas muito maior é o conflito entre moralidade e lei. Acho bastante relevante que estabeleçamos modos públicos de respeito a legalidade e modos públicos de adesão a dor dos outroso. Devemos respeitar a regra do jogo e o outro, sobretudo.

    Um grande abraço,

    Cesar

    [Reply]

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