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A Universidade Aberta

A Universidade aberta

A morte quase sempre é significativa. Ou significativa pela perda da pessoa querida. Ou significativa pelo alívio de se livrar de um desafeto. Não trato aqui de culpabilidade. A invenção platônica da filosofia, pelo diálogo escrito, ou a limitação dos ouvintes, da atividade reflexiva, guarda sempre um sentimento de morte. A morte da espontaneidade. Como matéria filosófica esse assunto é bastante mais complicado do que parece a uma primeira olhadela. O velho Derrida inverte todo esse sistema, mostra que é na invenção do diálogo, e na dimensão da escritura, que habita a grande espontaneidade do pensamento. A escritura como experiência sem dentro e nem fora. Mas não quero abordar um problema filosófico, mas uma disposição filosófica da nossa vida coletiva. A Universidade é a minha questão. Não penso aqui nas verbas da Universidade ou na condição trabalhista, deplorável, dos professores de Universidades particulares, nem nas pífias instalações das Universidades públicas; muito menos nas desventuras do reitor da Unb. O meu assunto é: o que significa uma Universidade aberta?
Ao pensar em Universidade aberta alguns significados me ocorrem. O primeiro deles, bastante ordinário, é o espaço físico universitário onde todos podem entrar. Pode parecer besteira, mas o espaço físico universitário, muito embora franqueado a todos, não é socialmente disponível para a habitação social. O espaço físico é muito mais um território de trânsito para universitários, do que um território de trânsito. Assim, aos universitários que transitam pela Universidade o trânsito possui apenas o sentido de passagem e não o sentido de habitação. Os universitários transitam pela Universidade (busca de formação profissional, sociabilidade e perspectiva de salários), mas não a habitam. O primeiro sentido da abertura da Universidade, julgado por mim ordinário, mostra-se bastante relevante. A Universidade não é aberta quando um determinado público pode transitar por ela, mas a Universidade é aberta quando a dimensão social da Universidade se permite habitar, então o trânsito passa a não ter público. Passa a ser um trânsito de todos, e, portanto, um estado constante de habitação.
O segundo sentido que me ocorre ao pensar em Universidade aberta, remete, não ao espaço físico, mas ao espaço espiritual. A palavra espírito pode parecer um pouco fora de moda, e realmente o vocábulo é um pouco velho, mas me encanta, logo, vou usá-lo, mas fixarei o significado. Digo por espírito a disposição inventiva da Universidade. A dimensão de que a Universidade inventa desde que habitada por fantasmas. Esses fantasmas são o seu espírito. A dimensão espiritual da Universidade é aberta desde que muitos fantasmas possam habitá-la. Em regra, habitam a Universidade os fantasmas dos professores: seus questionamentos, suas obsessões, suas agruras e onipotências. Nesse segundo sentido, também, a Universidade é fechada. Fechada pela inundação de apenas um tipo de portador de fantasmas. Este fantasma fechado é o mais belo que a Universidade fechada é capaz de produzir, pois tem a agressividade de produzir fantasmas, ainda que fora da Universidade: o pior dos fechamentos universitários é a atualização burocrática dos fantasmas dos técnicos. Este é o duplo fechamento. Para o duplo fechamento o remédio são as marretadas. Para o primeiro fechamento, aquele das dimensões trágicas, a solução são os cursos abertos. Abertos a todos e sem requisitos.
Não acabo de descobrir a pólvora: os franceses a descobriram antes. E por isso inventaram o Collège de France e também os cursos de Vincennes. Por certo, atendem, as instituições lembradas, muito mais ao espaço aberto dos fantasmas públicos, do que ao espaço aberto a ser habitado. Mas trata-se de uma idéia que deve ser investigada. Mas sobre qual pretexto de aproximação? Como nos fazer aderir ao projeto de abrir o espaço universitário à pluralidade de discursos (isosthenéia – com diziam os céticos gregos)? Como nos permitir a habitação de fantasmas? Lacan contribuiu para o modelo com seus seminários. Deleuze abria suas aulas preferencialmente aos não-filósofos. Derrida se agenciava aos psicanalistas e aos literatos.
A idéia de Humanidades nos serve de pretexto para a aproximação. A descoberta das Humanidades diz respeito ao esforço de evitar o insulamento dos discursos sobre os fundamentos da sociabilidade. Ao invés de fazer antropólogos, filósofos, sociólogos, teóricos da literatura e cientistas políticos técnicos de suas ferramentas conceituais, a idéia de Humanidades exige o investimento para a convergência de respostas ou de problemas. Creio que esse seja o mote da Universidade aberta. Mas para que não nos engessemos em nossas Humanidades – novamente com nossos fantasmas – devemos criar um conceito de Humanidades que nos invista na habitação e nos fantasmas coletivos. Abrir um discurso para todos, muito embora a linguagem incomode a tantos, um discurso para todos: numa habitação que recebe. Reviver um tipo de espontaneidade do pensamento.

Cesar Kiraly é poeta, psicanalista e cientista político. Professor de filosofia e teoria política da Universidade de Taubaté e pesquisador do Laboratório de Estudos Hum(e)anos do IUPERJ.

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