Meu irmão, recentemente, foi aprovado no curso de medicina. A felicidade familiar (e a minha, sobretudo) é imensa. O ambiente de aprovação e todos os seus ritos me fizeram pensar sobre algumas coisas. Num primeiro momento a questão que me chama a atenção pode parecer uma besteira. Mas penso que não. Trata-se do já tradicional rito de raspagem de cabelo. Ainda imerso no universo da aprovação passei os olhos por uma série de publicações de segunda categoria, dessas que fazem elenco de opiniões, e demonstram a aceitabilidade de determinadas práticas. De um modo geral, apesar do desconforto frente à s violências praticadas pelo trote (percebam que a violência quase sempre é trazida de modo abstrato: sejamos mais concretos: os atos consistem em humilhações, deformações fÃsicas e assassÃnios) existe consenso, relativamente amplo, de que quando bem praticado o trote, como rito de passagem, é uma coisa boa. A grande questão sempre esbarra no corte de cabelo (com ou contra a vontade). Assim, um primeiro consenso, este me interessa mais, é o seguinte: o corte de cabelo consentido é bom. O corte de cabelo sem o consentimento é julgado como negativo. Não pelo fato do corte como rito de passagem. Mas em virtude da agressão à soberania da vontade. Até aà não temos um problema, sequer uma questão, então busquemos encontrar um questionamento nisso tudo.
Tenho o hábito de pensar situações ordinárias em termos semióticos. A semiótica dos cabelos raspados não é das melhores. Os cabelos raspados podem sempre ser associados a alguma sorte de militarismo: a aridez retilÃnea pode ser comparada à organização, à disciplina, à agressividade (lembrar do visual dos lutadores contemporâneos) e ao controle. Isso no campo dos algozes. Mas do lado dos vitimados a semiótica também não é melhor: pensemos nas situações em que se raspam os cabelos contra a vontade (no primeiro caso existe uma sorte de adesão voluntária – corto porque quero parecer agressivo, porque sou disciplinado ou porque adiro à tradição): somos remetidos aos asilos psiquiátricos, à s prisões, aos campos de concentração e de extermÃnio. Com efeito, o modo inicial de se quebrar a individualidade, desejando ou sendo obrigado, é a extirpação dos cabelos. No caso do militarismo ou grupos agressivos não ter os cabelos é um modo de se mostrar à adesão aos princÃpios de massa (lembremos do velho Canetti: seu horror da massa e do poder exercido por essa: massas se comportam como lobos). No caso da perseguição (aos loucos, aos criminosos e aos judeus) cortar os cabelos é um modo de se evidenciar que a individualidade não será permitida. As imagens dos corpos em preto e branco da segunda-guerra (penso em Blaufuks: que me chama a atenção para o fato de que a segunda-guerra é uma guerra em preto e branco, bem como o extermÃnio que produz) todos não possuem cabelo. É por acaso? Claro que não. Os cabelos incomodam, perturbam, atrapalham a tecnologia da morte e afirmam a estratégia das personalidades. Aos negros não são proibidos os cabelos? De modo geral a semiótica dos cabelos raspados não é das melhores: nem do lado da compulsoriedade persecutória e nem do lado da adesão cega. Todos lembramos dos cabelos raspados de Olga Benario. Das reproduções fotográficas (em preto e branco) e das recomposições cinematográficas.
Mas por que o cabelo raspado dos adolescentes não nos incomoda? ImpossÃvel dizer que não está presente esta mesma semiótica. Trata-se de-um-tornar-se-massa e de-um-deixar-de-ser-indivÃduo. Mas o cabelo raspado dos adolescentes não nos incomoda, tratamos como um rito de passagem legÃtimo. Permitimos que os adolescentes mais velhos, já anulados, exerçam o pacto de anulação sobre os novos. Acredito que nessa crença exista um sintoma. A permissão, e tolerância, a esses modos de violência evidencia o papel aceitável do adolescente em nossas sociedades. Personagem absolutamente passivo. Sem qualquer força na determinação dos modos de sociabilidade. A não ser nos modos marginais entendidos como bonitinhos e nos modos marginais entendidos como criminosos. Assim, a coletiva aceitabilidade desse modo de violência é absolutamente coerente com a crença social do papel de configuração social do adolescente. Esse possui algumas opções: (1) o pobre pode cortar os cabelos e arrumar um emprego, (2) o pobre pode cortar os cabelos e ser morto em confronto policial ou por seus parceiros de crime, (3) o de classe média pode cortar os cabelos e ir para a faculdade e (4) o de classe média pode ter os cabelos cortados e ir para faculdade. A aceitação passiva é premente em todos os tipos.
Em casa: nós mesmos cortamos o cabelo de meu irmão. Assim, de modo bastante edÃpico o rito de passagem foi aprovado pelos mais velhos. A violência de casa pôde evitar a violência dos grupos de massa (uma boa coisa). Mas o papel de aceitação é exatamente o mesmo. No meu caso: tive os cabelos brutalmente cortados quando entrei para o segundo grau técnico (aceitação da horda) e um colega teve o corpo deformado por uma mistura descuidada de substâncias quÃmicas que se transformaram em ácido. O mesmo modo de aceitação: em uma semiótica absolutamente brutal.









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