Perto do carnaval fui convidado para participar de um programa de TV (TV Aparecida – programa ETC) para comentar o tema da felicidade. Por certo, esqueci que a felicidade pode ser um tema e lembrei apenas em falar da felicidade como um conceito. Pela caracterÃstica dos programas de TV não pude fazer uma exposição sistemática. Para não criar ambiente de sonolência nos lares do paÃs. Então, entrecortadamente, apresentei algumas caracterÃsticas da felicidade, mas de modo solto, pouco rigoroso, parece-me, dessa forma, no caso de alguém ter se interessado pelo pouco que disse, uma exposição um pouco mais ordenada pode ajudar os mais atentos. Comentei o caráter público da felicidade, quando colocada como uma questão de filosofia, pois, no âmbito privado não é menos racional desejar a destruição de um povo desconhecido se puder salvaguardar a minha felicidade (temática humeana).
Assim, a felicidade é um problema filosófico quando indagamos sobre as condições de ser feliz: na cidade, na pólis, no convento, na praça, no quarto… em todos os lugares onde a sociabilidade se impõe. Platão e Aristóteles (como não poderia deixar de ser) são os primeiros personagens dessa peça. Platão com a salutar aproximação entre a felicidade, o bem e o belo. Aristóteles com o estabelecimento da felicidade (eudaimonia) como objetivo primordial de uma ciência prática: como a ética ou a polÃtica. Com Platão e Aristóteles: o que julgamos belo ou bom: remete-nos ao sentimento de felicidade, desde que sejamos capazes de racionalmente perceber, na cidade, com os outros, elementos de coexistência na percepção do bem e do belo. O que significa que podemos, principalmente em Platão, causar infelicidade para produzir condições formais de felicidade. Ou, como pensa Agostinho, viver o calvário para atingir a verdadeira felicidade: viver como um Santo. O primeiro grande conflito no conceito de felicidade é julgar a sua morada. Na teleologia distante ou na consolidação formal de critérios para a sociabilidade?
Ainda que a antiguidade tenha percebido a relação entre felicidade e prazer, podemos dizer que a associação direta entre: felicidade, prazer e polÃtica: é feita pelos filósofos utilitaristas. Para ser mais especÃfico com Bentham. A pergunta não é se pensam, mas se sofrem. A pergunta não é se são livres, mas se sofrem. Prazer e sofrimento são categorias centrais para a determinação dos rumos polÃticos e para a consolidação dos princÃpios públicos da ética. De uma forma bastante particular – distinta daquela de Hume – e, por assim dizer, objetiva. Assim, os utilitaristas não têm qualquer problema em se opor à escravidão, à exploração de outros povos, ou aos maus tratos aos animais: o que está em questão é não produzir sofrimento. E sendo capaz – a polÃtica e a sociabilidade – de produzir prazeres sociais está apta (a polÃtica) a permitir a felicidade. Bentham pensava em alguns cálculos de felicidade. Mas nada tem que ver com a medição dos sorrisos. Mas com alguns fatores, quando presentes, capazes de produzir condições para a felicidade.
Um outro modo de reflexão sobre a felicidade, não se confunde de nenhuma forma com o rumo positivo adotado por Bentham, apesar de buscar as raÃzes filosóficas no empirismo inglês, da mesma forma como Bentham, é a filosofia de Schopenhauer. Essa nega a possibilidade constante da felicidade, em virtude de um impedimento metafÃsico, apesar de considerar a importância psicológica e metafÃsica do sentimento de prazer (para Schopenhauer a ligação entre prazer e felicidade não é evidente). “Tristeza não tem fim, felicidade simâ€. Este verso pode ser lido como um aforisma bastante schopenhauriano. E freudiano em certa acepção. Pois a infelicidade é a constância, a dimensão positiva do movimento, enquanto a felicidade é o seu negativo. Meio como o moinho possui dentes presentes e dentes faltantes. Assim, o princÃpio metafÃsico da existência: a Vontade: necessidade de engendras para fazer com que a vida (uma das disposições metafÃsicas – cujo valor é idêntico ao da morte) permaneça. O equilÃbrio da vida é bastante delicado, como também o é o da morte. Assim, a Vontade precisa engendrar modos para que a vontade deseje permanência (percebam que a Vontade princÃpio metafÃsico é distinta da vontade da natureza humana) – o modo mais adequado para apresentar a necessidade de vida é produzir a perseguição da felicidade: está é feita pela engendra da infelicidade.
O modo como pensamos, nós psicanalistas, habita esse universo schopenhauriano, (1) a constância da neurose, (2) a independência das pulsões (para Schopenhauer elas são dependentes e equilibradas – nós psicanalistas sabemos da força da pulsão de morte) e (3) o caráter protagonista da Unheimliche (podemos traduzir por estranheza – enquanto princÃpio metafÃsico).









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