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psicanálise: judaica e burguesa

É inafastável da psicanálise a sua história: uma ciência burguesa e judaica. Ao contrário das outras ciências (uso ciência no sentido bastante impróprio, quero dizer que a psicanálise é uma episteme sistemática) a psicanálise quer a sua história, deseja sua história, enfrenta a sua história e seu significado. A psicanálise é judaica porque marginal, porque é estrangeira, porque é nômade em seus preceitos e introjeta a diáspora enquanto uma dimensão conceitual. A psicanálise é judaica e por isso é universal. O que não significa que seus teóricos devam ser judeus, nem os seus partícipes, o judaísmo da psicanálise está no seu minoritarismo. Existem modos de se quebrar o judaísmo da psicanálise (insisto no significado do judaísmo, enquanto resistência em diáspora) como fizeram as instituições norte-americanas. A institucionalização rígida, a medicalização, a subsidiariedade frente a outros mecanismos de descrição (como a psicologia behaviorista) encerram a história da psicanálise. A psicanálise é burguesa. O que não significa que a psicanálise seja mercantil. Nem que não possa ter estratégias diferentes de sobrevivência. A psicanálise é burguesa porque sobrevive na capacidade de associação não estatal. Essa é uma invenção burguesa. Cabe à psicanálise praticada em países pobres desenvolver mecanismos de preservação de sua prática, de torná-la próxima de uma maior número de pessoas, mas sem perder a sua independência frente ao Estado. Assim, a psicanálise deve permanecer burguesa, mas sob estratégias de sobrevivência distintas. As clínicas sociais são um modo. A psicanálise, talvez, seja a última forma de resistência, com característica burguesa, ainda vigente, porque nada tem que ver com as estratégias do neoliberalismo e nem com o crescimento do papel do Estado no controle da saúde. A psicanálise é burguesa porque (ao mesmo tempo em que resiste, agressivamente, contra certo modo de moralidade burguesa) acredita que modos institucionais, não estatais, podem permitir que se critique os grandes estatutos de estabelecimento da normalidade. A psicanálise preserva o sentido marginal do judaísmo e da luta contra o Estado.

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