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As instituições da psicanálise

A psicanálise como parte do plano de saúde, ou como atividade regulamentada, é alguma coisa verdadeiramente inquietante. A psicanálise possui relação bastante estreita com sua instituição, aquelas por assim denominadas: sociedades. Diga-se de passagem, com características muito próprias. A instituição de psicanálise é fundada em algumas crenças básicas, bastante rígidas, sobre o cuidado do afeto. Esse núcleo coeso das instituições de psicanálise demonstra a dimensão moral da prática da psicanálise: o cuidado do outro e atividade política de impedimento dos mecanismos de simplificação e de opacidade da natureza humana. Para fora desse núcleo central as instituições de psicanálise são fluidas.
O aspecto fluido de algumas crenças da psicanálise é coerente com a preservação das crenças de cuidado com o outro. Com efeito, a crença no outro estabelece a necessidade de que sejamos capazes de mudar, constantemente, nossas crenças, e por sua vez, nossas instituições de cuidado. O que significa dizer que as instituições de psicanálise não se constrangem para alterar suas estruturas, pela necessidade de novos modos formais, para as novas crenças.
Por certo, possuem uma série de vícios: identificação exagerada com Freud, com as principais leituras de Freud ou com personalidades cativantes. Mas todos esses vícios são resolvidos pela permissão da modificação interna. A identificação exagerada com Freud permite que sua obra seja tão interpretada que não saibamos o que é um Freud original (o que nunca existiu), a identificação com as principais leituras estabelece dízimas de dissidências e o vínculo com personalidades cativantes gera uma enorme conflitiva: extinguem-se e surgem figuras com uma velocidade muito grande.
As instituições históricas, como a IPA e outras, bastante rígidas, acabam por ser fluidas pela composição profundamente conflitiva. Os dissidentes também são muito comuns. Tudo leva a crer que a instituição de psicanálise é um experimento político que deve observado com muita atenção. Não como curiosidade sobre as formas institucionais da política, mas como instituição que possui a criatividade e a inovação, de suas crenças, como um aspecto constitutivo: a instituição psicanalítica acaba por criar, historicamente, o modo político radical, no capitalismo, mais afeito à liberdade e a singularidade. As instituições, no capitalismo, precisam preservar a liberdade por estruturas rígidas, porque senão são tragadas pelo moinho da produção. Não se fazem abertas porque a criatividade não é um elemento constitutivo. A instituição de psicanálise, ainda que inaugurada pela figura central de Freud, pelos modos de poder, bastante paternais, exercidos pela sua personalidade, em suas muitas rupturas, preserva o cuidado do outro como elemento principal. Assim, se organiza em volta da presença natural da ruptura, bem como pela necessidade de reinvenção para sua perenidade histórica.
A captura das instituições de psicanálise, e dos analistas, por instituições estratificadas, não constitui apenas um ataque à liberdade do analista, mas à própria psicanálise. O ataque à psicanálise constitui ofensa aos modos de sociabilidade inaugurados pela subversão dos preceitos “normais” de sexualidade. A psicanálise inaugura modos de relação social que não são judicativos. A estratificação política da psicanálise, pelas tentativas de incorporação nas instituições de plano de saúde, próprias à estratificação médica, ou de regulamentação profissional, ofendem o potencial político e subversivo que a psicanálise sempre representou. A psicanálise, em sua liberdade, é uma conquista política.
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