Já houve um tempo em que os homens eram bastante afeitos à verdade. Penso que em diferentes tempos os homens foram apegados a diferentes tipos de verdade, mas todas essas verdades tinham alguma coisa em comum entre si. Não é estranho pensar que verdades religiosas, verdades polÃticas ou verdades metafÃsicas de toda ordem possuam uma estreita irmandade. No tempo em que a verdade era mais robusta, era raro encontrarmos uma vida que fosse mais relevante do que uma verdade, o que significa dizer que as existências individuais se relacionavam com as verdades de modo a estar a altura de uma determinada idéia. Assim, podemos dizer que já houve um tempo em que uma vida não valia uma idéia. Talvez, seja ilusão pensarmos que as coisas não são mais assim, e ainda que não sejam, alguma semelhança temos que admitir. Se as vidas não valem uma idéia, não valem de um modo distinto. Se no século XIX era preciso estar a altura de uma idéia, nós no século XXI não temos que ver com idéia nenhuma, de modo que com vida ou sem vida, não há tanta diferença. Em todos os tempos em que verdade apontava para uma submissão do homem pela idéias, havia um cético avisando que uma idéia não vale uma vida. Mas o cético avisa não no sentido de desqualificar a necessidade de se pensar a idéia ou a vida, mas no sentido de indicar que idéias e vidas são de tal forma indiscernÃveis que é preciso muitas idéias para uma vida. Nunca uma só. Em se tratando a vida como um espaço de muitas idéias, não podemos dizer que uma vida não valha uma idéia, o que uma idéia não valha uma vida, mas que idéias e vida são o mesmo. Devem se manter, sempre.









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