A temática do Encontro de Pós-Graduação da Universidade de Taubaté para o ano de 2007 é Linguagens e Sonhos: a pesquisa como projeto do humano. Em virtude dessa temática julgamos conveniente afirmar que a Filosofia pode contribuir para o debate que será travado em nossa Universidade interrogando os conceitos de Linguagem, Sonho e Investigação. Quais são os limites do conceito de Linguagem? O que pode ser entendido como uma linguagem? O Sonho já não é, nele mesmo, uma linguagem? A pesquisa inventa o humano ou o humano inventa a pesquisa? De que forma se pode entender a Investigação, em virtude dos caracteres gerais formadores, do que podemos denominar como natureza humana? É importante que sejamos capazes de aliar à s interrogações, positivamente cientÃficas, algumas questões sobre o sentido da pesquisa para a condição humana, para a criatividade e para a imaginação. A pesquisa é um sonho ou é uma invenção? Por que pesquisamos? Buscaremos desenvolver algumas possibilidades dessas interrogações buscando respostas nas reflexões de David Hume e de Sigmund Freud.
Hume e Freud, de modos distintos, contemplaram a experiência como a origem da atividade investigativa. Se por um lado Hume privilegia a experiência da sensação, Freud contempla a experiência dos fenômenos inconscientes e suas manifestações, como o sonho. Assim, a linguagem é o terreno onde Hume encontra a narrativa da sensação, da produção de conceitos, no sentido de iluminar terrenos obscurecidos pelo dogmatismo. Para Freud a linguagem é o objeto do saber sobre a experiência onÃrica e sobre o inconsciente. A linguagem do sonho revela conteúdo Ãntimo sobre o sujeito. A linguagem invocada para falar do sonho é tida como o manancial de informações, que uma vez organizado, pode indicar as estruturas internas do inconsciente. O diálogo entre Hume e Freud é bastante salutar; primeiro pela dimensão cética a que submetem as verdades gerais, tanto Hume, quanto Freud, desconfiam dos preceitos filosóficos que abstraem da experiência; segundo pela dimensão criativa a que submetem a experiência, tanto Hume, quanto Freud, entendem que a experiência não esgota a capacidade de criação conceitual, mas estabelece ponto de partida para a dimensão explicativa a que os fenômenos podem ser submetidos. Hume com seu encantamento pela natureza humana, sempre a sujeita à falibilidade e à invenção e Freud, com seu encantamento pela vida Ãntima, pelos fenômenos misteriosos e pela vinculação que esses fenômenos exercem sobre a vontade, está sempre atento aos determinismos provenientes da experiência afetiva.
Com a filosofia de Hume investigação e natureza humana tornam-se termos indissociáveis. O imperativo do empirismo: de que a experiência deve nortear os nossos juÃzos sobre o mundo, torna possÃvel, para a investigação, a capacidade do experimento. O que significa dizer que não são as idéias gerais que norteiam a nossa capacidade de compreender o mundo, mas sim a nossa capacidade de acumular experiências e orientá-las de modo criativo. As experiências acumuladas motivam a composição de idéias gerais, compreensivas. Mas ao contrário da atitude cognitiva que pressupõe o mundo, a atitude investigativa do empirismo estabelece: todos os nossos juÃzos são passÃveis de falibilidade. Assim, os enunciados de Hume nos permitirão afirmar que o objeto mesmo da investigação é a natureza humana, e que todos os nossos juÃzos compreensivos sobre o mundo estabelecem novos pontos de percepção acerca da complexidade de nossa natureza. A ciência, como a atividade mesma da investigação, encontra no homem o seu ponto de partida e de chegada, pois os enunciados cientÃficos surgem de nossa inquietação em conhecer e atingem a nossa inquietação de continuar conhecendo.
Se Hume, em virtude do empirismo, claramente submete a razão à imaginação, qual, e a comparação deve ser empreendida, é a relação entre razão e imaginação em Freud? Em um primeiro momento podemos dizer que nem a imaginação, nem a razão são problemas para Freud, mas sim os modos como razão e imaginação se relacionam na vida emocional, estimulando determinados processos (a imaginação) e impedindo outros (a razão) em virtude das inscrições inconscientes. Se para Hume a relação entre razão e imaginação é fonte de conflitos, tentativas de submissão e juÃzos falsos, para Freud a conflitiva habita no inconsciente vinculando a atividade da imaginação e da razão.
Por fim, o nosso objetivo com esse mini-curso é promover a reflexão sobre os temas que compõem a temática geral de nosso Encontro de Pós-Graduação. O que podemos conhecer em virtude de nossa linguagem é a nossa primeira indagação. O que podemos extrair de nossa linguagem que signifique projeção para o futuro, ou sonho, é a nossa segunda preocupação. A nossa terceira preocupação enseja a temática da pesquisa como projeto do humano, ou seja, a relação entre natureza humana, falibilidade e busca do conhecer.
Bibliografia Básica:
Freud, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição Standard brasileira. Traduzido do alemão do inglês sob direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_______. Conferências introdutórias sobre psicanálise. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição Standard brasileira. Traduzido do alemão do inglês sob direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_______. Introdução à psicanálise e as neuroses de guerra. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição Standard brasileira. Traduzido do alemão do inglês sob direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_______. Além do princÃpio do prazer. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição Standard brasileira. Traduzido do alemão do inglês sob direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_______. O futuro de uma ilusão. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição Standard brasileira. Traduzido do alemão do inglês sob direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
HUME, David. Tratado da natureza humana: uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocÃnio nos assuntos morais. Tradução Déborah Danowski. São Paulo: Editora UNESP: Imprensa Oficial do Estado, 2001.









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