A pesquisa que apresentamos possui como pressupostos: as reflexões de Jacques Derrida sobre a escritura e o imaginário poético de Edmond Jabès. Atrela, a esses pressupostos, as possíveis interlocuções com a psicanálise. De modo que não é preocupação da investigação que propomos remontar a apresentação histórica dos conceitos da filosofia de Derrida, nem ao menos ser fiel aos seus objetivos, ou aos desejos poéticos de Jabès. Esperamos que alguma fidelidade exista, em função da interlocução, mas não se trata de exposição que se preocupa com a fidelidade às fontes, mas de certa lealdade com dimensão criativa presente nas investigações de Derrida e nos poemas de Jabès. Assim, apresentamos Derrida e Jabès como pressupostos primários, uma série de pressupostos secundários poderia ser fornecida, mas o fato é que sem a reflexão prévia de Derrida sobre a temática sobre a qual nos detemos, nosso argumento perderia seu plano criativo. O que significa dizer que as idéias que expomos nessa pesquisa foram imaginadas em função de uma atmosfera provocada pela leitura da obra de Derrida e de alguns poemas de Jabès. A temática da escritura, como é enunciada por Derrida, permite-nos indagar acerca do conteúdo da experiência. Contudo, ponderamos que o conceito de escritura remete a uma determinada dimensão da experiência, aquela dimensão que nos permite explicar os atos criativos e os atos de memória como linhas de uma grande escritura, produtora de sentidos diversos. Essas linhas nos permitem entender o conceito de inconsciente como uma escritura, onde as experiências são inscritas em um plano perene. Entendemos, por outro lado, que um certo elemento do conceito de escritura está presente em situações como as que são evidenciadas por expressões como “fui marcado pela sua simpatia” ou “fulano me foi marcante”, ou em expressões como “aquele corte me deixou uma marca” ou “essa cicatriz é a marca de uma mordida de cachorro”. Esse elemento da escritura presente nas expressões salientadas, não possui a mesma especificidade de oposição ao logocentrismo, mas direciona para a permanência, a despeito da vontade, de determinadas experiências. Ao indagarmos qual é o elemento comum aos exemplos da escritura, da permanência como relevância e da permanência como cicatriz, perceberemos que o elemento que conjuga todos esses fenômenos é a marca. A escritura, como toda a sorte de permanência, depende que algo seja inscrito em algum plano, mas a inscrição deve ultrapassar a simples materialidade e avançar para o terreno afetivo. Freud corriqueiramente utiliza o termo Niederschrift (inscrição) para descrever como algumas experiências, para além da relação percepção – consciência, se inscrevem em algum plano do aparelho psíquico. Para comentar o fenômeno da inscrição invoca as noções de Darstellung e de Vorstellung no sentido de evidenciar quando alguma coisa pode ser “apresentada”: ou por remeter a imediatidade ou por depender de alguma intermediação para o acesso. Não questionamos a propriedade da distinção existente no alemão e o seu caráter específico para descrever algumas situações analíticas. Desejamos, contudo, evidenciar que a noção de marca, ao reunir as experiências, trata com mais exatidão do aspecto indiscernível dos afetos. Dessa forma, ensaiamos resposta para essa interseção. As experiências de um modo geral possuem como característica o fato de que marcam a natureza humana, de muitas formas, e a possível dubiedade sobre a temática da marca, fornece uma série de elementos para a teoria da psicanálise.
Chanson des deux éléphants du paradis (reproduzo deste poema alguns versos esparsos)
Il était, il était une fois
Deux éléphants qui ne dormaient pas.
Il était, il était une fois
Deux éléphants qui ne mouraient pas.
Il était, il était une fois
Deux éléphants qu’on ne nommait pas.
Il était, il était une fois
Deux éléphants que l’on n’aimait pas.
No poema a morte só pode surgir no ato de se nomear algo. De modo que trazer a vida, pelo nome, é ao mesmo um permitir a morte pelo desgaste temporal da nomeação. Mas se não nomeamos não podemos falar em morte, mas se não podemos falar em nome, não podemos falar de amor. O dilema que surge é o seguinte: para que sejamos capazes de amar, devemos ser capazes de nomear, ao sermos capazes de nomear colocamos a possibilidade da morte. Amar e deixar morrer: tornam-se duplos inafastáveis. Essa é uma questão que a psicanálise desde sempre investiga, mas que não consegue tirar conclusões, apenas apresentar o cenário.
Chanson pour le retour des hirondelles
Si je prenais tes bras
Et les coupais en quatre
Tu airais autant de bras
Que si tu étais quatre
Rois
Et quatre
Reines
Quatre joies
Et quatre
Peines
Si je prenais ta bouche
Et la coupais en quatre
Tu airais autant de bouches
Que si tu étais quatre
Lacs
Et quatre
Lunes
Quatre parcs
Et quatre
Prunes.
Si je prenais ton coeur
Et le coupais en quatre
Tu airais autant de coeurs
Que si tu brisais quatre
Ruches
Et quatre
Rondes
Quatre cruches
Et quatreMondes.
As marcas multiplicam as imagens. Como os braços de uma estrela-do-mar, que assumem vida independente, quando cortados. Nesse trecho reproduzido, as afinidades de Derrida e Jabès ficam ainda mais explícitas, bem como a coerência de se acrescentar à interpretação da escritura a dimensão da marca. No braço inscrevo uma fissura, no braço exerço uma marca profunda, até que posso cindir o braço em quatro, não mortifico os braços, tenho quatro braços, quatro bocas, quatro luas ou quatro mundos. A marca é a dimensão da experiência. Ao mesmo tempo em que consiste em interpretação que faz justiça as relações entre experiência afetiva e experiência empírica (não que a afetiva não seja empírica, apenas para marcar a distinção), pois não recoloca a rivalidade entre o dentro e fora. Em quatro braços sou cortado, pois sou quatro mundos, em mim, sou quatro, e vivo em quatro luas.









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