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Apologia das sombras ou as portas em avesso

Apologia das sombras ou as portas em avesso
(Comentários sobre a exposição de Fábio Cardoso – Lurix Arte Contemporânea – 24 de Março de 2007).
As mil e uma noites não precisam ser infinitas para que sejam infinitas. O que significa dizer que os mil e um grãos de areia da praia podem dizer todos os grãos, a praia toda, ou todos os grãos a cruzar os continentes com as massas de ar. Fábio Cardoso, outrossim, consegue façanha bastante semelhante, brincar com a idéia do infinito, com um número que para todos os registros não é tão grande. A série 99 portas não traz noventa e nove portas, talvez não cheguem a trinta, mas permitem uma sensação de infinito. Por que 99 são todas as portas? Ou porque 99 são todas as passagens? De maneira nenhuma, o 99 para portas ou passagens, não faz sentido, o sentimento correspondente ao operador de infinito não se coloca em atividade. Onde está o infinito do 99? Nas sombras. São 99 sombras. Sombras ímpares. Ãmpares porque não têm referentes. De modo que entre todas as correspondências, entre portas e sombras, sempre sobra uma. Uma sombra sem porta. Mas como é possível que de todas as portas, em razão do efeito ímpar, surja uma porta sem dono, ou sem correspondente? Não é possível, mas essa porta é o infinito. Como quem diz: Na única sombra sem porta mora o infinito. Essa porta é o impossível.
Fabio Cardoso brinca com a idéia de impossível. Pois em suas telas a tinta invade o branco. Pois em suas telas o negro faz com que o branco se torne temeroso de não mais existir. Em suas telas, a luz fica pesarosa por sua fraqueza, e a sombra se envaidece de tornar o mundo em sombra. Nem sempre consegue sustentar a tensão entre as passagens determinadas e as sombras infinitas. Por vezes deixa que uma tendência seja estabelecida. Por vezes interfere e resolve a favor da luz ou da sombra. Mas, em alguns momentos, e esses são primorosos, sustenta a tensão como quem suporta com o corpo um mundo sem referências. Um mundo sem representação, apenas a vontade, brincando com as sombras, fazendo do insuportável do conflito o único lugar digno de morada.
A luz lembra a evidência, os detalhes, e a sombra é amiga do mistério. Mas a sombra neste caso prefere ser um pândego, a brincar com a possibilidade de apavorar a luz, fazer com que trema por sua vida. Apenas a sombra sem referente possui esse poder. Por que não sustentar para todo o sempre a tensão? Será que não existiria tensão se não houvesse a conciliação? Não podemos dizer. Pois habitamos um mundo paradoxal que se equilibra entre a luminosidade e a sombra. A subjetividade que Fábio Cardoso espelha em sua série 99 portas habita essa ambigüidade de modo radical.
Recentemente escolheram algumas das portas de Fábio Cardoso para ilustrar uma matéria sobre Wislawa Szymborska, onde trouxeram alguns poemas da autora. Lembrei-me de um poema onde Szymborska conta a história de um gato que fica sozinho no apartamento, onde mora, com seu dono. O dono do gato havia morrido. O gato ficou sozinho. E precisava cavar um possível com as próprias unhas, cavar um possível nas paredes com as próprias unhas, ou então dormir. A luz tenta cavar um possível na sombra. Mas a luz não percebe que a sombra também é um possível, talvez o maior dos possíveis, o impossível. Fábio Cardoso percebe o possível da luz e o impossível da sombra, fica confuso quando toma partido de uma delas, faz-se genial quando não decide.
Cesar Kiraly
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