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Sobre a Servidão

Acho que Hegel possui uma filosofia que posiciona de modo interessante a questão da servidão. Tornar-se servo, de alguma forma, constitui o caminho da consciência quando olvida a autonomia sobre si, optar pela vida, em detrimento da consciência que ao se produzir, produz a história, e ao produzir a história, realiza a realidade pela razão. Mas a opção pela consciência em Hegel, ainda que seja um romper com o “arrastado da vida” pela composição racional como os rumos da história, consiste em aliança com o fazer teleológico do mundo, com a composição entre razão e história e sobretudo com os mecanismos próprios às grandes narrativas. O sobreviver pela consciência é uma sobrevivência racional, mas não é propriamente criativa. Lacan gostava desse conto hegeliano e se percebermos bem, as conseqüências são bem parecidas. A bolsa ou a vida? O desejo sempre. Ainda que o desejo seja da ordem das realizações da libido, não habita criatividade no desejo, a não ser no desejo do perverso. Mundo de perversos? Suponho que a criatividade tenha algo da perversão. Mas ao contrário do que dizem, não existe mais o desvio, mas o mesmo, sempre o mesmo. Em La Boetie existe uma resignação decorrente de se constatar que para além da produção da servidão por mecanismos sociais, a servidão torna-se de tal maneira intrínseca aos homens, que passamos a desejar a servidão. Como os nossos macacos que anseiam por um novo macaquinho para que possam surrar. Existe um ceticismo político radical em La Boetie. Ceticismo esse que não se enganaria com a possibilidade de vivermos como senhores. Pois a vida como senhor, também como a vida no desejo, não passa de um estado de coisas, ao qual estamos vinculados, sem muito fazer. Ter consciência da história, ou revelar os rumos da história, porque aos termos consciência do racional, somos a história, não faz com que a história se altere. Talvez a história tenha um regime racional para ser visto pelos senhores. La Boetie não concordaria com isso. A perversidade dá-se na história, muda pequenos rumos, criam-se pequenas liberdades, mostra-se a desnecessidade da história para a vida, mas para o cético a política tem que ver com certo regime de servidão, ou de obediência se preferirmos. Não sei como encerrar o comentário. Talvez ele não possa ser encerrado. Porque vivemos a esperar novos macacos, ao mesmo tempo em que não precisamos de macaco nenhum, o hábito fala de nós, como a boca torta fala do cachimbo. Encontrar elementos de desvio na política? Macacos políticos? Talvez precisemos de pequenas perversões. Mas não de maldade.
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