Comentar um trilho de trem possui uma indefinição bastante mordaz. Não sabemos se o trilho indica um caminho de proximidade ou de distanciamento. Sabendo quem é o autor do quadro é fácil imaginar para onde vai o trilho, o destino de um trilho para Anselm Kiefer deve ser dito sem rodeios ou eufemismos; o trilho aponta para a morte, para a incineração, para o läger e ponto. O sentido de se trazer um trilho para uma discussão moral habita no fato de pensarmos se caminhamos para a incineração ou se partirmos dela, se ao partirmos andamos em cÃrculos ou se ao partirmos deixamos algo para trás. Ainda que tenhamos deixado de sermos servos das vontades soberanas, não nos tornamos servos de nossas próprias vontades? Esse tipo de servilismo nos leva a incineração? Qualquer servilismo leva a incineração. Penso que não existe apenas a incineração de ossos, creio que existe também a incineração do possÃvel; se caminhamos para um läger não sei dizer, seja lá ele qual for, mas prefiro que meu trilho aponte para o caminho que julgo moralmente mais aceitável; o caminho do possÃvel e do impossÃvel. Se as possibilidades fossem crianças brincariam de criar o impossÃvel. O impossÃvel é a marca mesma da criação. A imaginação não se presta a algo, e, sendo assim, não se interessa pela barragem; deve-se retirar, ao assumirmos a imaginação, continuamente, a barragem que impede o possÃvel, para abandonar os trilhos que apontam para onde, de alguma forma, não queremos chegar. Não queremos voltar.









0 Comments on “Eis a dúvida, pois o trem”
Leave a Comment