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Da insuportabilidade da chama no olho

Fernando Gil em uma série de livros escritos no século XX abordou as questões relativas às crenças. Ainda que não tenha situado de modo explícito a centralidade do tema da crença na compreensão da natureza humana, tento fazê-lo assumindo o risco do absurdo, digo que a natureza humana possui a sua marca distintiva no fato de que somos capazes de crer. Contamos com a pesquisa de Fernando Gil para perceber que os atos de crença podem ser repartidos em função de sua intensidade. De modo que a convicção é de uma ordem diferente da evidência que se distingue completamente das nossas crenças ordinárias. Falo desse tema porque fui tocado pela tela de Enio Squeff na qual retrata Moisés que vê a chama. Não vou traçar nenhum comentário sobre a inserção desta obra no cenário da arte contemporânea, até porque as características modernas saltam aos olhos, contudo entendo que a marca contemporânea deste trabalho, com certeza em distinção com o resto da produção deste artista, habita no fato de que trata, remetendo ao tema da chama, daquilo que nos faz crer e da importância do conceito na composição dos atos de crença. Enio Squeff não é um contemporâneo, mas essa sua tela remete ao tema que julgo central para a compreensão do contemporâneo, em muitos aspectos, a noção de que o espírito humano é capaz, em função do investimento de sentido de fundar mundos. Mundos cujo estatuto é dado pela crença. Criam-se mundos por acreditar neles. Assim, de alguma forma, ainda que reneguemos, sem que uma releitura seja empreendida, boa parte da metafísica, legada pela tradição filosófica, o tema da evidência transborda este tipo de objeção, sendo lançado diretamente na investigação da experiência e os modos de relação da experiência com a crença. Uma sorte de experiências nos motiva por convicção insana, a qual extravasa o campo da criação conceitual e determina um rumo a ser seguido pelo conceito, mas cujo destino não é conceitual. Esse rumo a ser seguido pode ser determinado pelos contornos do conceito de evidência. Podendo ser investigado pelas inúmeras imagens desencadeadas pela metáfora da luz e da visão: ao expormos nossos olhos à luminosidade, essa nos marca definitivamente, de modo que não podemos deixar de buscar o que estava por detrás, ainda que o resultado seja nos tornarmos um pouco cegos. Cegos pelo execesso de luz. Cegos pelo excesso de busca. Talvez estas imagens sejam por demais metafísicas. Talvez não haja nenhum grande problema com a metafísica. Talvez a metafísica deva passar por boas releituras aproveitando o fato de que o tema da experiência é central na temática contemporânea. As evidências que nos motivam a fazer conceitos em uma determinada direção ainda não podem ser facilmente explicadas, senão por imagens, por vezes demasiadamente alegóricas. A passagem de Moisés é bíblica. A imagem da luz não precisar ser. Mas existe alguma coisa na exposição dos olhos a luz que ainda serve para elucidar o modo como pensamos ou os modos pelos quais convictamente defendemos nossos pensamentos. A chama, tal como a compreendo aqui, é absolutamente insuportável ao olho, mas essa insuportabilidade se dá em função de alguma verdade escondida por detrás das coisas? Ou será que a necessidade de perscrutar por detrás das coisas não funda o principal dos artifícios da natureza humana? Parece-nos que a fraqueza do olho à chama é uma das engendras mais interessantes para que permaneçamos sempre criativos. A evidência faz sentido, ainda, neste contexto.
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