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teatro ídiche

Margarida não conseguia entender como ele que era tão reservado era capaz de escrever poesia. De mãos na cintura, com movimentos laterais como que imitando um personagem de teatro ídiche, exigiu por resposta:

- Um poema é tão nu que está vestido.

: ouviu.

O verde é conservador?

Um pouco que a história anda as oposições quase-fundamentais são jogadas para baixo do tapete em benefício da coerência de superfície. Mas uma coerência de superfície nada mais é do que uma tensão superficial e uma vez que a rompemos, aquela infinidade de bichinhos que conseguem reinar nesses cincos minutos é afogada como que de repente. Isso ocorre com a esquerda. Existe uma séria oposição entre a esquerda e a religiosidade e entre a esquerda e o ambientalismo. Por esquerda quero dizer movimentos populares que encontram vínculo histórico no século XVIII e que disputam o poder com os proprietários de terra, os industriais, os detentores dos meios de informação e os especuladores que emprestam dinheiro a juros altos. Numa primeira chave a esquerda rivaliza com a religião, porque a idéia de que um princípio de ordem metafísico governa as coisas tal como elas são é profundamente inconciliável com a tentativa de criar um novo princípio de ordem quer pela violência, quer pelo movimento de trabalhadores, quer pela disputa parlamentar (em democracias majoritárias) ou numa intercalação história de todos esses elementos. Na outra, rivaliza com o monopólio dos meios produtivos. O conservadorismo verde rivaliza, como a esquerda, com os meios produtivos, mas não porque considere que eles devem ser ampliados, mas porque julga que existe um valor mais relevante que a população, o ambiente. Assim, o poder exercido pelas religiões é opositor do poder exercido pelos grupos sociais reativos. Nesse perspectiva, o conservadorismo do verde é mais próximo do conservadorismo religioso, enquanto que esquerda e capitalistas se aproximam da ideologia produtiva.

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Maiusc’Ulisses

Maiusc’Ulisses

Restei-me morto. Um pouco morto. Restei-me perdido. Um pouco perdido.

Papel. Jornal. Papelão. (O homem preto gritava na rua, um grito que de tanto gritado era a garganta toda). Pois sim. Era exatamente isso. Sua garganta era resultado do grito: Papel. Jornal. Papelão: – Leve sim, leve ao homem preto que grita na rua. Todo esse Papel. Jornal. Papelão.

Tive apenas dois filhos em vida. Depois. Restei-me morto. Um pouco morto.
Perdido. Um pouco perdido. Restei-me perdido. Entre estantes de muitos livros coloridos.
Como gosto de me perder entre livros coloridos.
(Ufanista. Gosto de não ser francês. Sendo. Ou húngaro. Não sendo. pois cá os livros são coloridos).
( ) oloridos. Ele me pediu. Pediu Sim. Pediu. Um pouco de dinheiro. Um pouco de moeda. Umas moedas
que eram dinheiro. Para comprar comida? Não. Para comprar
( ) odida? Não. Para encher a cara de pão.
Tive apenas dois filhos em vida. Nego. Nego. Nego. Tive apenas dois mais um filho filhos em vida.
um se perdeu por falta de amor.
As ( ) ulheres que me fazem perder o filho.
Nego. Nego. Nego.

Em esporro disse: – Leve o papel. Jornal. Papelão. Para o negro. Negro. Negro.

Tive dois mais dois filhos em vida.
um deles. Não sei. Pode ter estado vivo ou morto.
Não sei.
O outro era de papel e se chamava Wasabi. (Uma espécie de quentura japonesa que lhe serviu de epílogo).
Pois. Bem. Não era um dos meus dois filhos. Era o mais um. O mais um dos dois.
Ele se perdeu na multidão. A mãe o deixou perder. E eu tolo. A consolei com os dois braços.
Mal sabia que me apunhalava as costas. Doce amizade. Apunhalante e de silêncio.
( ) a ( ) ulher. Ela sim. Levou-me o primogênito. Meu primeiro filho homem. Ele que me cantaria o Kadish.
Mas porque perdido. E morto no perdimento. Quem lhe cantou o (K.)adish fui eu.
Ele perdido carregou meu nome?

Papel. Jornal. Papelão. (O homem preto gritava na rua, um grito que de tanto gritado era a garganta toda). Pois sim. Era exatamente isso. Sua garganta era resultado do grito: Papel. Jornal. Papelão: – Leve sim, leve ao homem preto que grita na rua. Todo esse Papel. Jornal. Papelão.

Alumínio. Cobre. Metal. Material velho. Carregador de coisa velha. (Pombas de pamonhas que não se pode comer). Leve ao carro velho. Alumínio. Cobre. Metal. Leve toda coisa velha.
Alumínio. Cobre. Metal. Leve toda coisa velha.
Leva nada. Não leva. E essa mortalha?
Velha. Leva mortalha de ( ) humbo?
Leva mortalha velha?
De chumbo?
Do p-
equenino Wasabi? Leva. Mortalha. de. Chumbo. Velha.

(Nos meus ouvidos o (K.)adish não cantado)

Aquele que não vale mais nada como poeta. Porque enchia a cara de pão. Com moedinhas. Bem sabia o nome de sua filha. Sua pequena prendinha. Sumi-ê. Nome escolhido no meio dos livros. Não tão coloridos. Ai que se escrevessem livros
( ) oloridos. Eu enxergaria bem como o metal.

- Não vamos nos enganar dizia ela. O seu corpo é feito palha. E por isso o que vem de ti eu abandono na multidão. Lembra como salvou o seu irmão? Na multidão? Tão apavorado quanto ele. Dizia seguro que não estavam perdidos. Mas encontrados sem ninguém saber. Nem mesmo eles. Eles? Eles não. Tão apavorados quanto nós. Mas que nó? O nó do cinto de sua outon’alma. Que te envolve o pescoço. O nó deste ab(c)into no entorno do seu retorno. No entorno do seu pescoço. – Eu adoro um pescocinho – Mas não de palha – Eu adoro um pescocinho – Mas não de palha – Eu adoro um pescocinho – Mas não de palha.

- E a mãe se enforcou no cinto de seu ab(c)into. Absintindo-te pouca. Arrogante. E.
( ) alha. Não vamos nos enganar dizia ela. O nosso novo Wasabe não é o antigo. O antigo eu matei porque não te amo. E deixemos uma corda no pescoço da Sumi-ê. No caso de não s-
umi ( ). Como desejo. Para ter o meu espaço.

( ) ( ) ( ) (tome espaço).

aperto o cinto

digo sinto. quantas vezes quanto sinto.
ao arrancar o cinto.
não sinto nada envolta do pescoço.
nem mesmo o cinto que nele
está. absintindo-se
a tristeza. aperto o cinto.

sabe, papel da manhã?

sabe, papel da manhã?
todos esses sons que nos
envolvem. a vida acordando.
barulhos de acorda.
uma corda tesa.
os barulhos envolta do
pescoço. os barulhos da manhã.
o choro doce de uma mulher
no banheiro. passarinhos.
canhões. sabe de uma coisa
papel da manhã? res-
sinto-me. bem-te-vi é
tão fácil. não cabe
num poema novo.

Blefus(K)us e Mos(K)eaton

Das ilhas que não visitei:
Blefus(K)us ou o Mos(K)eaton
dessa casa que não me deixa dormir.

Blefus(K)us I

ela era um tanto calada.
um tanto no canto.
era pequena como um ratinho.
um tanto no canto.
ela era um tanto calada.
um tanto no canto.
dela não se ouvia a voz.
mas apenas murmúrios.
ofendi-lhe o silêncio.
um tanto no canto.
ofendi-lhe os murmúrios.
um canto no tanto.
– Abra-te a boca.
– Um tanto no canto.
assombra-me: – A ti falta a língua.

Blefus(K)us II

ela delirava de febre
em espasmos róseos.
o delírio é puro e nu.
o corpo todo quente.
e delirante e nu.
caminha. sem língua.
porque dela fora
arrancado os cantos.
todos. mas no canto.
da boca. restou-lhe o
tempo. branco. das memórias.
– Abre-te o canto.
– Um tanto na boca.

Blefus(K)us III

ela me olha e me guarda.
o sono. e me guarda.
me guarda. e me doa.
seu. corpo. pois. um.
não tenho.

Blefus(K)us IV

ela me deu
um par de sapatos
apertados.

Blefus(K)us V

ela me deu um par de apertados
sapatos com guizos. pois. de tão
sensível. fora. pensou que talvez
cego eu pudesse ser. muito embora
não tivesse indícios.

Blefus(K)us VI

certo contentamento certo
certo certo
contentamento
certo certo
pois adivinhara que meus
sapatos são sempre pretos e as meias
sempre coloridas. pois há que se
exibir as canelas do morto. pois senão
a morte carece de graça. ela deu-
me os sapatos apertados de um morto.
do morto Buster. Keaton expondo
as canelas engraçadas. ficou. ficou.
ficou. morto. engraçado: – Buster
Keaton restou torrado e sem
sapatos. acertou-lhe um raio
engraçado.

Blefus(K)us VII

Robson Crusoé morreu de casa. ad-
vertido do risco saiu de casa. tome-
lhe uma tartaruga na cabeça: – Ta-
dinho mortinho. e sem sapatos. mas
nas canelas não lhe faltou graça.

Blefus(K)us VIII

um poema com muitos nomes próprios
se torna obtuso. mas ao se
perder grandes amigos. como não
dizer seus nomes? escolho pelo
obtuso de seus nomes.

Blefus(K)us XI

os prazeres vem do fogo.
aprender a fazer fogo.
aprender a fazer chover.
chover fogo. babar labaredas pelo canto
da boca sem língua.

Blefus(K)us X

: – Sim, eu te disse que conheci um homem
incapaz de fazer chover fogo. Um
senhor estranho que não mantinha a barba
toda, mas apenas uma linha de pelo cir-
cundante ao rosto. Apesar de não saber
chover fogo. (como era portador de língua e
vaidade, recorria ao tagarelismo). Segura-
va um bastão de brasa. Ao qual ele batia
as cinzas, mesmo depois de apagado. Pensei
que havia alguma superioridade nele, pois
mesmo incapaz de chover fogo, procurava
fazer nevar cinzas.

Blefus(K)us XI

: – Posso lhe dizer que amei-a acima
de tudo, porque me permitia lhe tocar os bi-
cos dos seios com as mãos sujas de tabaco. Por
essa razão lhe dei a soberania absoluta de
minhas febres e deslocamentos.

Blefus(K)us XII

: – Eu não sabia amar o vazio, não sabia,
a sua mera presença não enchia o meu coração
com ternura, como achei que deveria sentir,
e ele me punia não mais me procurando à
noite. De alguma forma ele me punia com
mais vazio e com mais silêncio. Se as pala-
vras agonizam na língua, podemos sempre ar-
rançar a língua com um golpe de faca. Ou
podemos tirá-la do corpo com os próprios dentes.
Mas ele me punia aos ouvidos com seu silêncio.
Era como se vivêssemos numa ilha de vento
insuportável e constante. sem voz huma-
na. E como eu haveria de arrancar os ou-
vidos? Poderia arrancar as orelhas e as
colocar nos bolsos de seus casacos velhos.
Mas ele teria um presente nisso. Eu fica-
ria sem orelhas e ainda haveria de escu-
tar o silêncio. A solução era tapar
os orifícios dos meus ouvidos com resti-
nhos de poeira e cabelo.

Blefus(K)us convict XIII

venha me ver hoje à noite – ela disse
ao homem que acabara de conhecer – o
meu silente homem está insatisfeito por
não ter escrito e não quero passar insatis-
feita.

não sei nadar – ele pensava enquanto
lutava para ter uma idéia que fosse
muito passo e pouco pensamento –
se eu estivesse em lugar que não me
desse pé, eu fatalmente afundaria
como um sa(pato) pesado, preto e ve-
lho. eu afundaria. certamente. mas
aqui. no seco. eu danço. sapateio.

venha me ver hoje à noite – ela disse
ao homem que acabara de conhecer –, pois
ele não sabe nadar e quando não tem
idéia afunda tristemente. o meu si-
lente homem. no seco. sapateia.

três coisas – pensam eles – ele no seco sapateia.

eu sapateio – pensou ele – porque
no seco meu sapato velho e barulhento
com seus furos na sola ecoa.

sapateio
sapateio
sapateio
sapateio

nos meus sapatos de Keaton.

sapateio
sapateio
sapateio
sapateio

porque no seco eu sei.
desse… dessa… disso…
porque no seco eu sei.
desse… dessa… disso…
matar o mos(K)eaton.
no seco eu não afogo.
ainda que se me molhem
as solas pretas e velhas.
desse… dessa… disso…

três coisas – pensam eles – no seco
ele faz barulho de boca fechada, ainda
que comedor de línguas.

desse… dessa… disso…

eles pensam que não sei. ela pensa
que eu não sei. eu sei que ela sabe que
eu não sei nadar. e sei que ela denuncia
o meu sapato aqueles fazedores de
companhia em minhas noites de
sapato e mos(K)eaton.

três coisas – pensam eles – estamos en-
ganando um grande dançarino. pois nin-
guém faz tanto com sapatos tão velhos.

sapateio
sapateio
sapateio
sapateio

e não resta de mim
um Keaton
sequer.

inutilmente

os segredos da tua felicidade
estão marcados nas paredes de
dentro do meu crânio.

insisto em virar os olhos
para dentro. para cima. para sempre.
para poder ler.

inutilmente.

mesmo cego eu estaria bem.
mas olho para fora. e não.
para dentro. para cima. e para sempre.

inutilmente.

Metafísicas do Olho: Variações I

Neste artigo procederemos a três movimentos, de algo que pode ser literariamente descrito como Variações: (1) narrativa sobre a arqueologia na obra de Michel Foucault. Porque aquilo que desejamos dizer adiante demanda certa ambientação que apenas uma forte filosofia dos discursos, dos arquivos e dos fragmentos é capaz de produzir, (2) corporificação do discurso com a metáfora do olho (a possível opacidade de um olho sem fundo, ou sem intimidade) e (3) a estruturação da idéia de opacidade da dor do outro. Desejamos mostrar que existe uma explícita complementaridade entre a identificação da fragmentação dos discursos, a identificação do esvaziamento dos olhos e a identificação da opacidade diante da dor do outro. Aproximaremos essas três identificações filosóficas com um imperativo moral cético: é na identificação da fragmentação dos discursos que percebemos e nos desviamos da opacidade do fundo do olho e opacidade da dor do outro. Porque se a opacidade da dor do outro é algo que se impõe pela necessidade, ela bem se diferencia da prática ativa de tornar a dor do outro uma dor opaca. Pela identificação da fragmentação dos discursos não só reconhecemos a opacidade, como instauramos, outrossim, outros regimes nos quais a opacidade possa se tornar sinônimo de intimidade expressiva, e não de abandono moral. No segundo movimento apresentaremos variações sobre um conto de Hoffmann e no terceiro movimento: variações sobre Regarding the Pain of Others de Susan Sontag. Um dos primeiros ensaios sistemáticos sobre uma teoria social da imagem fotográfica. Os fortes vínculos entre a arqueologia filosófica de Foucault e nosso interesse neste conto fantástico de Hoffman e nas análises de Sontag sobre a fotografia aparecerão na narrativa, e decorrem da estrutura das Variações.

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Israel é um estado de coisas

Reconheço que a minha posição é relativamente isolada. Defendo o estado de Israel sempre que a moralidade me permite e o faço por convicção. Acredito no direito a um estado judeu. Que segundo o peso dado pelo uso conceitual das palavras não quer dizer a mesma coisa que um estado cristão ou um estado protestante. Um estado judeu é um estado cuja composição se dá pela cultura judaica e não propriamente pela defesa estrita de enunciados teológicos. O que significa que o estado judeu permanece judeu no que concerne ao governo dos mortos sobre os vivos. Mas não é um estado apenas composto por judeus. Se algum dia a composição demográfica de Israel se tornar minoritariamente judaica, permanecerá a ser um estado judeu. Existe uma raridade grande em ser de esquerda, acreditar nos movimentos sociais, na transformação pelas idéias, e defender algo como um estado de coisas. Pois bem, para mim, Israel é um estado de coisas.

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Sete enunciados de filosofia moral para tempos de copa

(1) a bola nunca tem culpa.
(2) sobre câmeras: super slow é super fast.
(3) nem sempre o vermelho é comunista.
(4) enunciados históricos esclarecem pouco sobre jogos constituídos por regras.
(5) se pergunta “de que lado faz gol” está olhando, mas não está vendo.
(6) a irracionalidade no futebol é sempre paranoicamente racional: só se perde por causa das conspirações.
(7) a culpa nunca é do campo.

A morte de Saramago

No dia 18 de Junho morreu José Saramago. Escritor por quem não nutria nenhum afeto especial. Mas não posso dizer que não passei alguns momentos agradáveis com a sua escrita. Ressinto-me com a sua morte não sei bem o porquê. Sinto que devo prestar alguma homenagem. Não há homenagem maior para um homem combativo do que partilhar de suas inimizades. Por essa razão, em virtude da tristeza que sinto pela notícia de sua morte, faço de seu inimigo, o meu inimigo.

Procurando o Muito no Pouco.

Abordaram à região dos Gerasenos, situada defronte da Galileia. Quando desceu para terra veio-lhes ao encontro um homem da cidade, possesso de vários demônios, que desde há muito não se vestia nem vivia em casa mas nos túmulos. Ao ver Jesus prostrou-se diante dele, gritando em alta voz: ‘Que tens que ver comigo, Jesus, filho do Deus altíssimo? Peço-te que não me atormentes!’ Jesus, efectivamente, ordenava ao espírito maligno que saísse do homem, pois apoderava-se dele com frequência. Prendiam-no com correntes e grilhões para o manterem em segurança, mas ele partia as cadeias e o demônio impelia-o para os desertos.

Jesus perguntou-lhe: ‘Qual é o teu nome’

‘O meu nome é [..]ião[..]‘ – respondeu bem baixo.
Jesus insistiu na pergunta: ‘Qual é o teu nome’

‘ O meu nome é [..]ião[..]‘ – respondeu bem alto e depois abaixando a voz.

Jesus tentou adivinhar ainda em tom de pergunta: ‘Legião’

‘Não, o meu nome é Damião’ – respondeu.

Lucas, 8: 26-28 (da epígrafe de Lobo Antunes)

Futebol de Salão

Algo de muito atraente liga a rotação dos jogadores ao retângulo do campo e das áreas a correr por um objeto cujo movimento é ao mesmo tempo determinado e indeterminado. Algo nos jogos de futebol é atraente por uma opacidade constante do futuro previsível. Eis o que a imaginação curatorial teve que desafiar. Pois existe algo que o salão faz que não está presente no campo. O salão reduz o espaço e aumenta a velocidade. Se já não fosse suficiente lidar com a opacidade constante do futuro previsível a imaginação curatorial se coloca mais um desafio, pensá-la no salão. Com o efeito da velocidade bem aumentada os objetos precisam estabelecer aglutinação simpática ou serão incapazes de falar. E falam e como falam. Não o suficiente para a irritação das vuvuzelas. Mas existe alguma polifonia concertada. Há um conforto inexplorado em se dialogar com a imaginação curatorial, porque nela existe um teórico enunciador, mas ausente, que não se coloca pelo princípio de autoridade, mas que se dá à consistência, quando consistente.

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O mesmo texto, mas com outras imagens, no sítio da Galeria Lurixs: Arte Contemporânea, clique aqui.

o passado não se corta

cortando o passado.
eles lutam por algo.
uma faca.
um tesouro.
e o martelo no andar
de cima não se interrompe.
poderíamos arrancar as
mãos dos que aprendem
o bongô. restariam silenciosos.
só respeito os tocadores de
tambor. se cotocos persistem.
cortando o passado.
mas o passado não se corta.
s e f a t i a.

O Ódio de Classe

Há tempos que os franceses falam em uma neurose de classe. Aparentemente ela se manifesta sob as condições sociais de mudança ascendente de classe, na qual o sujeito sofre, justamente, porque não se sente parte do universo ao qual passa a pertencer. Nesses contextos o que existe é uma personalidade que por questões de mérito e austeridade deixa de pertencer a sua antiga classe social, que passa a não mais vê-lo como um igual, e passa a ser incorporado por uma outra à qual ele não se sente pertencente. Esta neurose pouco comum – porque é muita mais fácil que as pessoas desçam de classe do que subam de classe, se podemos dizer assim, além do que, as mobilidades de classe costumam se dar em blocos populacionais, então, toda uma população muda em conjunto o seu modo de vida e seus vínculos de afetos – é percebida em circunstâncias sociais que permitem ascendência meritória pela educação. O fenômeno, pois bem, não nos interessa muito, pelo menos não no que concerne a um dos grandes problemas brasileiros, a pobreza, mas nos permite ver uma das faces escondidas da resistência aos pobres. Porque a neurose de classe se manifesta como sofrimento, mas como em toda neurose existem repressões, que, no caso, se mostram como ódio de classe.

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a árvore da montanha

a árvore da montanha

então. então o que? então o
homem se sentiu sufocado em
casa. mesmo com as janelas abertas.
mesmo com o clima ameno.
então. o homem se sentiu sufocado.
em. casa. e saiu. mas sufocados
não estão todos? pois bem, ele não
tinha duas mãos no pescoço.
não tinha? não, não tinha. mas se
sentiu sufocado. e saiu de casa.
para voltar. ele saiu de casa.
para voltar. procurou a
chave. encontrou? encontrou.
rodou a chave na fechadura.
e destrancou a porta. e abriu a
porta. e pelo chão gelado debaixo
de seus pés. descobriu-se sem sapatos.
ele é louco? não, sufocado.
calçou os sapatos. certos? sim, certos.
um de cada cor? não, dois da mesma.
cor. então. o homem se sentiu sufocado,
encontrou a chave, rodou-a na fechadura
com sucesso, descobriu-se sem sapatos, os
calçou certos e apagou o cigarro
na mão esquerda. mas quando o
acendeu? acendeu o que? o
cigarro. quando acendeu? ele
estava aceso quando do sufoca-
mento. desde sempre? sempre.
então. o homem se sentiu sufocado,
encontrou a chave, rodou-a na fechadura
com sucesso, descobriu-se sem sapatos, os
calçou certos e apagou o cigarro. desde
sempre aceso. na mão esquerda. e.
saiu. no verso da mão e saiu.
para depois voltar. a plenos pulmões.
com cigarro acesso. acesso? acesso.
a plenos pulmões acesos.