COP 15 ou A humanidade é a doença de pele da terra?
O fracasso de uma conferência sobre o clima só pode ser explicado por razões políticas. Mas a política não entra no debate apenas para explicar a irracionalidade dos líderes mundiais. Porque a decisão por uma política climaticamente orientada também é uma decisão política. Mas não consiste numa decisão política naquela modalidade ampla na qual toda decisão é política, mas numa acepção bastante antiga, reconhece-se na política ambiental a orientação científica da política. Mas o que se quer dizer por isso? Afinal de contas, existe uma ciência da política e sabemos que as políticas são bastante definidas pela construção de coisas muito grandes que precisam de avaliações científicas, como a investigação do impacto geológico na construção de um túnel ou o impacto biológico de uma hidroelétrica. Mas não é nesse sentido que a ciência, com essa nossa nova preocupação, pretende, politicamente, conduzir a política, porque, podemos perceber, que a ciência, nos exemplos fornecidos, é coadjuvante: a decisão política não é barrada pelo enunciado científico, mas é apenas alterada em elementos acidentais. Hoje, o que se pretende, é que os enunciados científicos possam decidir na política e não apenas informar os processos decisórios.
Assim, o fracasso da atual conferência do clima poderia ser anunciado há tempos. Porque a conferência foi mobilizada para decidir cientificamente acerca das ações governamentais para salvar o clima, mas o processo decisório, ali presente, não tinha nada que ver com a ciência, mas apenas com política. Isso quer dizer que os atores lá presentes representaram os interesses de suas populações, mas não representaram todo e qualquer interesse, mas os interesses que são levados à política. Por certo, que todos os cidadãos estadunidenses não querem alterações climáticas, mas nenhum deles leva esse não querer à política dos representantes. Ele leva esse não querer apenas à expectativa do que verá na televisão. Ele não quer políticos discutindo clima, ele quer cientistas discutindo o clima, ele quer políticos representando seus interesses na política. Claro, não precisamos de genialidade para saber que podemos querer coisas diferentes de pessoas diferentes. Até mesmo querer coisas diferentes de uma mesma pessoa que representa muitos papéis. Podemos escutar os Ministros do Ambiente falando como cientistas. Mas essa nunca é uma expectativa acerca do exercício do ministério, mas apenas uma expectativa de informação de fonte privilegiada.
Qual a solução? Porque ninguém em sã consciência deseja ser cúmplice de qualquer projeto de poder da ciência. Não se deseja levar o pensamento da hipótese a ação política. Afinal, no que a política se levanta de certa imediaticidade relativa à vulnerabilidade humana, ela sempre acaba exigindo demais. Mas também não sentimos muito conforto com a acefalia da imediaticidade da política. Precisamos de uma razão para exigir dos representantes decisões acerca de assuntos climáticos, como decisões que espelham interesses políticos. Mas como ter uma razão, ou uma paixão, para fazê-lo? Os poucos que conseguem produzir alguma ligação entre as hipóteses científicas e o universo das decisões políticas, hoje, são os trágicos acerca da questão ambiental. Aqueles que dizem que a hipótese do aquecimento não é mais verdadeira do que a hipótese de que o planeta esquenta e esfria sem que tenhamos muito capacidade de ingerir nesse processo. Aqueles que dizem que a humanidade é a doença de pele da Terra, ou até mesmo, o carcinoma da Terra. Eles estão muito certos, e conseguem uma bela síntese. Mas, de modo geral, não sentimos dessa maneira. Precisamos de uma razão para dizer que independentemente da hipótese, a preservação, em matéria ambiental, é sempre mais verdadeira do que a destruição, precisamos de uma razão para dizer que a preservação é sempre melhor. Mas qual é a razão? Essa é a razão?