
Das ilhas que não visitei:
Blefus(K)us ou o Mos(K)eaton
dessa casa que não me deixa dormir.
Blefus(K)us I
ela era um tanto calada.
um tanto no canto.
era pequena como um ratinho.
um tanto no canto.
ela era um tanto calada.
um tanto no canto.
dela não se ouvia a voz.
mas apenas murmúrios.
ofendi-lhe o silêncio.
um tanto no canto.
ofendi-lhe os murmúrios.
um canto no tanto.
– Abra-te a boca.
– Um tanto no canto.
assombra-me: – A ti falta a língua.
Blefus(K)us II
ela delirava de febre
em espasmos róseos.
o delírio é puro e nu.
o corpo todo quente.
e delirante e nu.
caminha. sem língua.
porque dela fora
arrancado os cantos.
todos. mas no canto.
da boca. restou-lhe o
tempo. branco. das memórias.
– Abre-te o canto.
– Um tanto na boca.
Blefus(K)us III
ela me olha e me guarda.
o sono. e me guarda.
me guarda. e me doa.
seu. corpo. pois. um.
não tenho.
Blefus(K)us IV
ela me deu
um par de sapatos
apertados.
Blefus(K)us V
ela me deu um par de apertados
sapatos com guizos. pois. de tão
sensível. fora. pensou que talvez
cego eu pudesse ser. muito embora
não tivesse indícios.
Blefus(K)us VI
certo contentamento certo
certo certo
contentamento
certo certo
pois adivinhara que meus
sapatos são sempre pretos e as meias
sempre coloridas. pois há que se
exibir as canelas do morto. pois senão
a morte carece de graça. ela deu-
me os sapatos apertados de um morto.
do morto Buster. Keaton expondo
as canelas engraçadas. ficou. ficou.
ficou. morto. engraçado: – Buster
Keaton restou torrado e sem
sapatos. acertou-lhe um raio
engraçado.
Blefus(K)us VII
Robson Crusoé morreu de casa. ad-
vertido do risco saiu de casa. tome-
lhe uma tartaruga na cabeça: – Ta-
dinho mortinho. e sem sapatos. mas
nas canelas não lhe faltou graça.
Blefus(K)us VIII
um poema com muitos nomes próprios
se torna obtuso. mas ao se
perder grandes amigos. como não
dizer seus nomes? escolho pelo
obtuso de seus nomes.
Blefus(K)us XI
os prazeres vem do fogo.
aprender a fazer fogo.
aprender a fazer chover.
chover fogo. babar labaredas pelo canto
da boca sem língua.
Blefus(K)us X
: – Sim, eu te disse que conheci um homem
incapaz de fazer chover fogo. Um
senhor estranho que não mantinha a barba
toda, mas apenas uma linha de pelo cir-
cundante ao rosto. Apesar de não saber
chover fogo. (como era portador de língua e
vaidade, recorria ao tagarelismo). Segura-
va um bastão de brasa. Ao qual ele batia
as cinzas, mesmo depois de apagado. Pensei
que havia alguma superioridade nele, pois
mesmo incapaz de chover fogo, procurava
fazer nevar cinzas.
Blefus(K)us XI
: – Posso lhe dizer que amei-a acima
de tudo, porque me permitia lhe tocar os bi-
cos dos seios com as mãos sujas de tabaco. Por
essa razão lhe dei a soberania absoluta de
minhas febres e deslocamentos.
Blefus(K)us XII
: – Eu não sabia amar o vazio, não sabia,
a sua mera presença não enchia o meu coração
com ternura, como achei que deveria sentir,
e ele me punia não mais me procurando à
noite. De alguma forma ele me punia com
mais vazio e com mais silêncio. Se as pala-
vras agonizam na língua, podemos sempre ar-
rançar a língua com um golpe de faca. Ou
podemos tirá-la do corpo com os próprios dentes.
Mas ele me punia aos ouvidos com seu silêncio.
Era como se vivêssemos numa ilha de vento
insuportável e constante. sem voz huma-
na. E como eu haveria de arrancar os ou-
vidos? Poderia arrancar as orelhas e as
colocar nos bolsos de seus casacos velhos.
Mas ele teria um presente nisso. Eu fica-
ria sem orelhas e ainda haveria de escu-
tar o silêncio. A solução era tapar
os orifícios dos meus ouvidos com resti-
nhos de poeira e cabelo.
Blefus(K)us convict XIII
venha me ver hoje à noite – ela disse
ao homem que acabara de conhecer – o
meu silente homem está insatisfeito por
não ter escrito e não quero passar insatis-
feita.
não sei nadar – ele pensava enquanto
lutava para ter uma idéia que fosse
muito passo e pouco pensamento –
se eu estivesse em lugar que não me
desse pé, eu fatalmente afundaria
como um sa(pato) pesado, preto e ve-
lho. eu afundaria. certamente. mas
aqui. no seco. eu danço. sapateio.
venha me ver hoje à noite – ela disse
ao homem que acabara de conhecer –, pois
ele não sabe nadar e quando não tem
idéia afunda tristemente. o meu si-
lente homem. no seco. sapateia.
três coisas – pensam eles – ele no seco sapateia.
eu sapateio – pensou ele – porque
no seco meu sapato velho e barulhento
com seus furos na sola ecoa.
sapateio
sapateio
sapateio
sapateio
nos meus sapatos de Keaton.
sapateio
sapateio
sapateio
sapateio
porque no seco eu sei.
desse… dessa… disso…
porque no seco eu sei.
desse… dessa… disso…
matar o mos(K)eaton.
no seco eu não afogo.
ainda que se me molhem
as solas pretas e velhas.
desse… dessa… disso…
três coisas – pensam eles – no seco
ele faz barulho de boca fechada, ainda
que comedor de línguas.
desse… dessa… disso…
eles pensam que não sei. ela pensa
que eu não sei. eu sei que ela sabe que
eu não sei nadar. e sei que ela denuncia
o meu sapato aqueles fazedores de
companhia em minhas noites de
sapato e mos(K)eaton.
três coisas – pensam eles – estamos en-
ganando um grande dançarino. pois nin-
guém faz tanto com sapatos tão velhos.
sapateio
sapateio
sapateio
sapateio
e não resta de mim
um Keaton
sequer.