
o menino k.
prólogo
ao contrário de meu querido amigo Oscar não considero que minha vida tenha sido um hospÃcio, claro que sempre me assusto muito para discordar de Oscar, os seus gritos, ao pensar em contrariá-lo, assolam o meu ouvido, por dentro, como a única força da natureza verdadeiramente verdadeira. apesar da minha vida não ter sido um hospÃcio, passei boa parte da minha vida em hospÃcios. essa é a história que contarei. a minha história de visitação em hospÃcios. mas não quero que confundam essa história com um romance, trata-se de uma história apenas no sentido largamente impróprio pela qual podemos chamar um conjunto de acontecimentos irregulares, atravessados pela memória, e pelos desejos, de história. na verdade, conto um pequeno pedaço da minha vida. não é um romance, porque depois do que fez meu amigo Oscar – que contou a sua história meio que como romance – sinto muito enjôo ao falar de romances. dos livros que contam coisas pela necessidade de contar. depois de meu amigo Oscar – o tocador de tambor de olhos azuis, creio que turquesa – não há mais que se falar em romances. conto a minha história, ou pelo menos um pequeno pedaço das coisas que penso que se deva contar, a qual não é bem história, do modo pelo qual os homens que escrevem poemas marcam pedaços de papel, não pela necessidade de contar alguma coisa, mas para se livrarem de um pedaço do corpo. conto a minha história em hospÃcios para me livrar de um pedaço do meu corpo. para andar apenas com um pedaço de memória sem corpo.
aqueles que chamarem esse livro de romance serão amaldiçoados pelo espÃrito de meu amigo Oscar o tocador de tambor e precisarão percorrer a vida com os seus agudos gritos quebradores de vidros e quebradores de vidraças-alma. como meu bom, e pequeno, amigo Oscar – aquele que se recusou a crescer, para tocar tambores – não tenho qualquer sentimento que me ajude a combater a crueldade. ou sou cruel ou tenho compaixão. e compaixão é apenas aquele sentimento que nutrimos por aqueles a quem permitimos morrer sem que desejemos.
posso ser chamado de K. ou de aquele que tem um corposcrito.
do nascimento
sinto desprezo pelos natimortos.
como se a morte fosse empecilho
de alguma coisa. sinto desprezo
pelos nativivos. como se a vida
fosse algo de que se orgulhar.
do nascimento dos meus olhos
os olhos tinham duas cores.
duas cores por lado.
ou quatro cores.
duas cores por lado.
os olhos eram como olhos de mosca.
ou oito cores.
duas cores por lado.
os olhos eram como tigres.
duas cores por rajada.
os olhos eram como gotas.
dois pingos por globo.
(3)
sempre me perguntei: onde esse maldito
lunático escreveria se suportasse o
quarenta e três (?) por certo, escreveria
sobre o corpo, talvez com algum pedaço
afiado de pedra. não deixa de ser
tolo escrever sobre o corpo. porque todos escrevemos
no corpo. é o primeiro alfabeto.
mas nas mãos de um lunático.
lúcido. é impossÃvel dizer o estrago que
teria causado. impossÃvel de dizer.
impossÃvel de dizer.
(4)
ele é um homem rasgador
de febres. todos os lunáticos
diziam. e apenas os insanos entendem
de lucidez. ele ficara ao relento
até a garganta supurar e os pulmões
encherem de lÃqüido. apenas com quarenta
e uns graus de febre se colocava
a falar: e era lúcido: como era lúcido:
lúcido como demônio: lúcido como o
deserto. apenas com quarenta e dois
se colocava a escrever no escuro. em pedaços
de jornal. numa escuridão profunda.
com um pedaço de carvão. como era lúcido.
demais do que se pode suportar de lucidez: lúcido
como o demônio. lúcido como Deus.
todos os lunáticos diziam que se
chegasse a quarenta e três alguma verdade
intocável da vida seria tocada.
ao chegar a quarenta e três: morreu.
para o bem de todos nós.
(5)
eu mesmo tenho o corposcrito. como de fato
todos têm. mas eu sei. não seria capaz de ostentar
a lucidez na carne. apenas ostentaria a
lucidez nas orelhas. mas tenho medo de furá-las.
temo furá-las. pavor: furá-las.
(6)
rasgadores de febres
são mutiladores de si mesmos.
arrancam braços, olhos e dedos.
arrancam narizes, membros e nacos de carne.
perfuram tÃmpanos. perfuram tÃmpanos. perfuram tÃmpanos.
para a gargalhada de um pÃfano. de um flautista.
de um pÃfaro flautinista.
pelo prazer de escrever poesias em corredeiras.
a tinta bem próximo do papel. sem tocar.
e coices d’água. pedras. homens caÃdos.
a tinta bem próxima do papel sem tocar.
e curvas. e curvas. e curvas.
a tinta bem próxima do papel sem tocar.
de repente. e poema. e poema. e poema.
do sai e do fica
amontoado vocálico
a – e – i – o – u
amontoado consonantal
b – c – d – f – g – h – j – k. – l
não, k. não fica.
k. fica.
não, k. tem que sair.
se k. sair. eu saio.
s – a – à – d – a
- apenas um:
ai. um frio fenomenológico.
tudo bem: k. fica.
e k. ficou.
de quando se conhece o pai
ai tempo. ai tempo. ai tempo.
ai tempo. ai tempo.
ai tempo.
ai tempo. ai tempo.
ai tempo.
ai tempo. ai tempo.
ai tempo. mil vezes ai tempo.
por que me devora por dentro?
ai tempo.
ai tempo.
ai tempo.
por que me devora por dentro e devora
por fora? e me devora por dentro e devora
por fora. tudo. tudo. tudo o que tenho.
ai tempo.
por que devora por dentro e regurgita
tudo o que tenho?
não tenho nada e tudo que tenho é tempo.
só tenho tempo e tudo o que tenho é nada.
ai tempo. deixe que ele fique.
deixe que ele fique.
porque ele é tudo o que tenho e não tenho nada.
nele sempre amei tanto.
por todos os motivos de
estar perdido. ser perdido. no
perdido do encontro.
a ele amei tanto.
pelo ódio sem fim.
deixe que ele fique.
porque ele é tudo o que tenho e não tenho nada.
do falar e do calar
e eu racionalista pergunto:
onde calo?
na boca.
do eu e do tu
desfaço-te pedra por pedra
sobre o tampo de vidro.
desfaço-me pedra por pedra
sobre o tampo de vidro.
e de tanto cair quebramos o vidro.
e de tanto cair quebramos o vidro quebrado.
e de tanto cair quebramos o vidro quebrado do vidro.
e de tanto cair restamos pedra sobre pedra.
e vidro quebrado de vidro. e uma
coisa só. felizes.
dos acidentes
isso que parece sangue no meu dedo: é sangue.
isso que parece corte na minha carne: é corte.
isso que parece morte na minha alma: é morte.
das cordas
extensa corda no vazio e falta
vazio para o vazio. e falta corda
para o vazio. e falta corda para
todos nós. e se falta corda
para os nós, sobrou apenas o nó
da minha mão, feito em vazio, os
nós dos meus dedos. e se falta dedos
para os nós. e falta corda para
o vazio. dou nós nas cordas da
minha voz. e na voz. e na voz.
e na voz. resta sempre uma
gagueira. na voz se guarda
sempre uma gagueira. um
silêncio na voz.
des(aparece) e (des)aparece
do conhecimento
conheci uma casa de homens loucos.
conheci uma casa de homens.
conheci uma casa.
conheci.
e conhecendo.
conheci. homens. nus.
conheci. homens. nus. que. viam. antenas. invisÃveis.
conheci. homens. nus. que. não. viam.
conheci. homens. de roupa. que. arrancavam. olhos.
conheci. homens. de roupa. que. arremessavam. olhos.
conheci. homens. nus. que. tapavam. olhos.
e tudo conheci ainda menino sem ponto ou vÃrgula muito
cedo ou cedo demais para conhecer e contei tudo e
todo o resto ficou muito tarde para se conhecer e restou
apenas o tempo para aprender a dizer.
e conheci uma casa.
de homens loucos. tamborete. de homens
loucos. tamborete. e. com eles. ficava bem.
tamborete. e conheci uma casa
de homens loucos que ficavam nus.
tamborete. nus. tamborete. alguns
arrancavam olhos. outros arrancavam
lua. tamborete. alguns lançavam
olhos. tamborete. outros. rua. tamborete.
mas não se me arrancaram os
olhos. os. meus. perdi.
depois. sozinho.