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Margarida pediu one trago.

Raimundo diz:
mas eu te amo Margarida.
Margarida diz:
preciso ler para crer.
Raimundo diz:
acredita em tudo o que lê?
Margarida diz:
não, mas preciso ler para crer.

Então, Raimundo acendeu um cigarro e pensou:

“Como este Rasgo na minha garganta que de tempo em tempo volta a abrir, o rasgo da minha alma deve voltar a cicatrizar, sozinho”.

Margarida pediu one trago.

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da caixa de música

gato. se todo gato.
preso. e bem. dentro de
casa. então. fiquem
os gatos presos. em
casa. se eles jogam
a caixinha de música
no chão. e a quebram
em 5 pedaços. 4 encontra-
dos e um perdido. então.
ficam os gatos presos.
em casa. e na caixinha.
era. a internacional
socialista que tocava.
vamos sair. amor.
deixe trancado. os
gatos. uma casa
não é um pulmão.
a vida é mais que
asma. e. o pulmão. é
mais do que internacional.
mesmo que socialista.

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dos bilhetes e dos pensamentos

bilhete de número 1 (encontrado no bolso da frente) - bordas regulares

eis, espero e não chega.
eis, volto e não volta.
aqui, atendo, sozinho.

bilhete de número 2 (encontrado no bolso de trás) - bordas irregulares

a melancolia das manhãs.
a frieza das madrugadas.

bilhete de número 3 (encontrado no bolso da camisa) - depois da máquina de lavar

e não restam nem mesmo
as tardes.

“entre um bilhete e outro as pessoas pensam”.

então Raimundo pensou:

“ele é o maior poeta
dos nascidos vivos.
ele é o maior poeta
dos natimortos.
ele nasceu um pouco morto,
mas depois vingou”.

então Margarida pensou:

“há demônios para dias de sol.
há demônios para dias de chuva.
há demônios para dias felizes.
há demônios para infernos.
dos demônios que se tem notícia
o pior deles é o passado. não
que a maior parte das
pessoas tenha algo de feio lá
onde o olho não mais vê.
ainda assim. ele. persegue.
o demônio é um conjuntinho
de tristezas. um montinho de
pelo, poeira e cabelo. uma
ovelhinha de gato. o demônio
é uma árvore: persegueiro.
o demônio é o nome da árvore.
que não existe. e. nem. existirá.

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sorites

sorites

existe um momento
em que ainda é dia.
quase sem sê-lo.
outro. noite. mas
entre uma coisa.
e. outra. nunca
percebo. queria o
exato momento. o
exato momento que
me escapa.

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Elementaridade em David Hume

Conferência sobre o gosto, a simpatia e a elementaridade no pensamento de David Hume.

Segunda Parte e Terceira Parte

A conferência toda pode ser assistida nesta lista de reprodução, clique aqui.

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Manuel Caeiro: os objetos pictóricos

Manuel Caeiro: os objetos pictóricos
(em razão da inauguração da exposição portuguesa, publico novamente esta crítica)

Desde que o arguto Descartes descobriu a consciência, tornou-se uma atividade intelectual bastante comum encontrar formas geométricas na experiência. No sentido de encontrar a verdade por trás da sensibilidade. Atividade essa passível de ser descrita pela colonização da sensibilidade pelo claro e distinto. Por certo, antes de Descartes os gregos encontravam formas geométricas em sobreposições de acidentes, mas as formas, para os gregos, eram a verdade dos acidentes, e no caso de Descartes, o vislumbramento das formas era a opção por uma modalidade de mundo capaz de fazer obsoleta outra possibilidades: com Descartes teríamos um mundo de imagens, mas dificilmente um mundo de imagens pictóricas. A opção pelo claro e distinto tornara obsoleta a opção pelo escuro, acidental e confuso.

Mas pode ser que Descartes não esteja certo. E se ao invés de colonizarmos a sensibilidade com formas, não formos, justamente, antes compostos pelas formas da sensibilidade? Se essa hipótese não cartesiana estiver correta, então, precisamos que Manuel Caeiro nos mostre o que fazer, e o que ver.

Caeiro, artista português, na série DownTown, mostra-nos um mundo abstrato-concreto, no qual sentimos na pele a não existência das formas. Aparentemente temos construções de madeira para auxiliar obras, parece que estamos num parque de obras, repletas de grafias acidentais, restos de tinta, marcas; ao que Caeiro nos inverte: são formas plenamente concretas, porque não podem ser vistas ou tocadas. Apenas no plano pictórico existe concretude, e Caeiro nos ensina que antes de qualquer coisa, o mundo é a coleção de objetos pictóricos plenos de existência, porque não existem.

* De sábado, 16 de janeiro,
a domingo, 28 de março.
Local: Centro Cultural Vila Flor – Palácio Vila Flor
Guimarães, Portugal

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Estética da Tortura: sobre “A História Oficial” de Luiz Puenzo

Mas, qual é a estética da tortura? Ela nos remete a ambientes brancos de assepsia, quando pensamos na tortura médica. Naquela que orienta a política por enunciados pseudocientíficos e que se vale dos oponentes do regime (oponentes étnicos ou ideológicos) para experimentar crueldades. Ou a porões sujos, ambientes sombrios, de paredes mofadas e rudimentos de aparelhos elétricos, para os choques, e tinas d’água, para os afogamentos. Há também uma estética da tortura religiosa, com instrumentos de madeira, fogo, óleo quente etc. Mas nos interessa aqui o segundo tipo de estética da tortura: porque ela concerne à tortura militar. A máquina de morte e dor americana, recentemente, atualizou a estética da tortura militar com dispositivos de plástico. Mas quero tratar da tortura militar das décadas finais do século XX. Aquela praticada pelos franceses na Argélia, pelas ditaduras latino-americanas, inclusive, é a estética das torturas militares no Brasil.

Para ler o ensaio todo na Agência Carta Maior, clique aqui.

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A mulher, nasce esmagada

Raimundo pensou depois de colocar o último ponto em uma carta para sua Margarida:

“O homem é um animal que pode ser esmagado por uma pedra metafórica. A mulher, nasce esmagada”.

E lambeu a ponta dos dedos. Para limpar a comida. E lambeu o verso dos selos. Para provar a lambida. E lambeu um pouco dos lábios. Para provar a saliva. E percebeu: que: apenas: lambendo: no: mundo: é: que: existe: saída. Molhada saída para uma pedra de gelo, a lambida.

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epústolas

epústolas

as cartas sempre se interrompem.
elas se interrompem pelo papel
findo. elas se interrompem pelo
carteiro morto. elas se interrompem
porque param de chegar. por
essa razão, recomenda, se,
sempre matar o mensageiro.
se ele for ligeiro. atire nas
pernas. se ele for matreiro.
arranque os olhos e dedos.
por essa, razão, recomenda, se,
fazer sofrer e matar o mensageiro.
dar-lhe todas as pústulas
das epístolas sempre findas.
as cartas. é certo. sempre se
interrompem. ou. pelo papel
findo. ou. pela mão. morta.

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piscadela, céu azul, [...]

o dorso marcado.
sempre marcado.
deveras marcado.
e se tenho cicatrizes na barriga,
pescoço, peito e rosto.
é porque por burrice nunca
dei as costas; às encostas.
preferi quebrar as pernas.
agonizar nas teimosias.
do que feliz, domado, subjugado, ser bem-vindo.
cavalo burro, escuto dos sábios.
estampido, céu azul, piscadela, céu azul,
piscadela, céu azul, [...]

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ai, a covardia desses homens cheios de dores.

depois de ter quebrado
a perna. aperto os olhos
e os ouvidos. para o
tiro que me estampirá
a cabeça. depois da
perna quebrada. resta
o estalido.
pisco. céu azul.
pisco. reflexo na poça.
pisco céu azul.
a perna quebrada.
e o céu azul. antes
do estalido. céu azul.
para um cavalo de perna
quebrada. estalido.
céu azul.

nietzsche viu quando
quebrei a perna. ouviu
meu estalido. me viu sofrer.
e me deixou morrer.

ai, a covardia desses homens cheios de dores.

dostoiévsk viu quando
quebrei a perna. ouviu
meu estalido. me viu sofrer.
e me deixou morrer.

ai, a covardia desses homens cheios de dores.

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COP 15 ou A humanidade é a doença de pele da terra?

COP 15 ou A humanidade é a doença de pele da terra?

O fracasso de uma conferência sobre o clima só pode ser explicado por razões políticas. Mas a política não entra no debate apenas para explicar a irracionalidade dos líderes mundiais. Porque a decisão por uma política climaticamente orientada também é uma decisão política. Mas não consiste numa decisão política naquela modalidade ampla na qual toda decisão é política, mas numa acepção bastante antiga, reconhece-se na política ambiental a orientação científica da política. Mas o que se quer dizer por isso? Afinal de contas, existe uma ciência da política e sabemos que as políticas são bastante definidas pela construção de coisas muito grandes que precisam de avaliações científicas, como a investigação do impacto geológico na construção de um túnel ou o impacto biológico de uma hidroelétrica. Mas não é nesse sentido que a ciência, com essa nossa nova preocupação, pretende, politicamente, conduzir a política, porque, podemos perceber, que a ciência, nos exemplos fornecidos, é coadjuvante: a decisão política não é barrada pelo enunciado científico, mas é apenas alterada em elementos acidentais. Hoje, o que se pretende, é que os enunciados científicos possam decidir na política e não apenas informar os processos decisórios.

Assim, o fracasso da atual conferência do clima poderia ser anunciado há tempos. Porque a conferência foi mobilizada para decidir cientificamente acerca das ações governamentais para salvar o clima, mas o processo decisório, ali presente, não tinha nada que ver com a ciência, mas apenas com política. Isso quer dizer que os atores lá presentes representaram os interesses de suas populações, mas não representaram todo e qualquer interesse, mas os interesses que são levados à política. Por certo, que todos os cidadãos estadunidenses não querem alterações climáticas, mas nenhum deles leva esse não querer à política dos representantes. Ele leva esse não querer apenas à expectativa do que verá na televisão. Ele não quer políticos discutindo clima, ele quer cientistas discutindo o clima, ele quer políticos representando seus interesses na política. Claro, não precisamos de genialidade para saber que podemos querer coisas diferentes de pessoas diferentes. Até mesmo querer coisas diferentes de uma mesma pessoa que representa muitos papéis. Podemos escutar os Ministros do Ambiente falando como cientistas. Mas essa nunca é uma expectativa acerca do exercício do ministério, mas apenas uma expectativa de informação de fonte privilegiada.

Qual a solução? Porque ninguém em sã consciência deseja ser cúmplice de qualquer projeto de poder da ciência. Não se deseja levar o pensamento da hipótese a ação política. Afinal, no que a política se levanta de certa imediaticidade relativa à vulnerabilidade humana, ela sempre acaba exigindo demais. Mas também não sentimos muito conforto com a acefalia da imediaticidade da política. Precisamos de uma razão para exigir dos representantes decisões acerca de assuntos climáticos, como decisões que espelham interesses políticos. Mas como ter uma razão, ou uma paixão, para fazê-lo? Os poucos que conseguem produzir alguma ligação entre as hipóteses científicas e o universo das decisões políticas, hoje, são os trágicos acerca da questão ambiental. Aqueles que dizem que a hipótese do aquecimento não é mais verdadeira do que a hipótese de que o planeta esquenta e esfria sem que tenhamos muito capacidade de ingerir nesse processo. Aqueles que dizem que a humanidade é a doença de pele da Terra, ou até mesmo, o carcinoma da Terra. Eles estão muito certos, e conseguem uma bela síntese. Mas, de modo geral, não sentimos dessa maneira. Precisamos de uma razão para dizer que independentemente da hipótese, a preservação, em matéria ambiental, é sempre mais verdadeira do que a destruição, precisamos de uma razão para dizer que a preservação é sempre melhor. Mas qual é a razão? Essa é a razão?

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Estética e Política: Georges Didi-Huberman

Gosto bastante do trabalho de George Didi-Huberman. Em momentos distintos trouxe material de conferências dele, alguns vídeos. Agora, encontrei mais esses dois novos vídeos. Ainda não os assisti com muita atenção, mas deixo aqui para encontrá-los com mais facilidade depois. Como um arquivo, mas que também é céu aberto. Como um objeto que posso deixar num banco. Para encontrar depois. Mas com a certeza, ou quase ela, de que não será destruído, maculado, mas apenas visto. Talvez eu encontre amigos nesse banco de praça. Talvez não. Mas pode ser que sim. Daí, gostarei muito.

Georges Didi-Huberman from IKKM on Vimeo.

Georges Didi-Huberman: ›Abgioia‹. Danser la peur et le conflit from IKKM on Vimeo.

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Introdução ao Livro I do Tratado da Natureza Humana de David Hume

Introdução ao Livro I do Tratado da Natureza Humana de David Hume, no Colóquio Hume e Freud realizado no IUPERJ no dia 05 de Dezembro.

A segunda parte, neste link.

A terceira parte, neste aqui.

Ainda, pode-se ver de na lista de reprodução, para tanto, clique aqui.

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“Lula, o filho do Brasil” (antes de visto)

“Lula, o filho do Brasil” (antes de visto)

Ao ver o filme O ano em que meus pais sairam de férias pensei que os melhores filmes brasileiros não são fantásticos ou ficcionais, mas são alegóricos da nossa constituição (solo, terra, religiosidade.) ou de nosso passado recente (e quase tudo no Brasil é passado recente). Por certo, existem filmes que alegorizam a nossa compleição de classe média, nosso consumismo, nossa vocação para perder tempo com besteira, e são filmes ruins. E há aqueles que alegorizam temáticas interessantes, mas não conseguem nada com isso.

A expectativa natural seria a de um pedido de nomeação dos bois. Mas tirando O ano em que meus pais sairam de férias e os filmes do Glauber Rocha e esse dirigido pelo Nachtergaele (como alegóricos de nossa constituição), não vou nomear boi algum. Mas digo que existe uma maturidade pictórica colossal em nossa capacidade de alegorizar nossa constituição e passado recente, e é isso que torna o cinema nacional artisticamente relevante.

Mas escrevo para dizer as minhas razões para ver Lula, o filho do Brasil. Na verdade, não é bem um filme biografia, pelo que entendi, mas um filme de exemplaridade. Existe uma exemplaridade em Lula: ele é um, mas é uma multidão. Então, é um filme sobre um homem meio multidão, mas que trata mais da multidão que do homem. Os comícios, a perda de entes queridos em hospitais fétidos, as concessões, e muitas concessões, à suposta realidade das coisas imposta a todos os brasileiros… são os temas, me parece, desse filme. Vejo o filme, antes de vê-lo, como uma alegoria de nosso passado recente. Mas diferente de outros trabalhos sobre nosso passado, este filme sobre Lula é um filme sobre um passado do qual podemos nos orgulhar – nosso recente passado operário.

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