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o atemorizante humor da crença

Há tempos, nem tanto tempo assim, publiquei uma crítica sobre um trabalho de Nachtergaele que julguei genial. Um excesso de genialidade que poderia demorar uma vida para aparecer, mas eis, pois, a ironia, que essa genialidade surgiu densa e necessária à juventude de um diretor. Todavia, como sempre, o riso me passou despercebido, mas é necessário atentar para o humor, composto de matizes singulares. O que Nachtergaele comentou nessa última edição do caderno #Mais fez-me pensar que mais uma vez esqueci o atemorizante humor da crença.

Tudo Bem

MATHEUS NACHTERGAELE
ESPECIAL PARA A FOLHA

Tudo Bem” [Versátil Home Vídeo, R$ 39,90], de Arnaldo Jabor, é um dos meus filmes brasileiros prediletos. O retrato ácido e louco de uma família de classe média que reforma seu apartamento nos dá, de forma lúdica e visceral, a exata dimensão da relação entre as classes no país. O filme flerta com o absurdo, com Nelson Rodrigues, e o painel dos personagens é deslumbrante. Atores como Paulo Gracindo, Fernanda Montenegro, Zezé Motta, Fernando Torres, Stênio Garcia, José Dumont, Luiz Fernando Guimarães e Regina Casé revezam-se em situações hilariantemente desconcertantes.
Um espetáculo de talento e conteúdo a cada cena dessa obra genial, que nos provoca o melhor dos risos: o de espanto e terror.

a beleza do POP morto

eu tenho horror completo a cultura pop, mas em alguns momentos sou capaz de ouvi-la. sobre o que se fala acerca do não-humano, acho sempre bastante cativante. é verdade que ele exerceu sobre a imagem de si mesmo uma violência quase sem tamanho. e isso é muito bom. mas a única coisa que me restou de dúvida, e acho que isso se deve ao fato de não compreendermos as imagens da maneira como deveríamos, é o porquê de sabermos da morte do Jackson, de sentirmos a morte do Jackson, mas não entendermos a morte do Jackson. parece que ainda não entendemos que imagens podem morrer. e essa morreu.

*comentário levemente alterado.

o menino k.

o menino k.

prólogo

ao contrário de meu querido amigo Oscar não considero que minha vida tenha sido um hospício, claro que sempre me assusto muito para discordar de Oscar, os seus gritos, ao pensar em contrariá-lo, assolam o meu ouvido, por dentro, como a única força da natureza verdadeiramente verdadeira. apesar da minha vida não ter sido um hospício, passei boa parte da minha vida em hospícios. essa é a história que contarei. a minha história de visitação em hospícios. mas não quero que confundam essa história com um romance, trata-se de uma história apenas no sentido largamente impróprio pela qual podemos chamar um conjunto de acontecimentos irregulares, atravessados pela memória, e pelos desejos, de história. na verdade, conto um pequeno pedaço da minha vida. não é um romance, porque depois do que fez meu amigo Oscar – que contou a sua história meio que como romance – sinto muito enjôo ao falar de romances. dos livros que contam coisas pela necessidade de contar. depois de meu amigo Oscar – o tocador de tambor de olhos azuis, creio que turquesa – não há mais que se falar em romances. conto a minha história, ou pelo menos um pequeno pedaço das coisas que penso que se deva contar, a qual não é bem história, do modo pelo qual os homens que escrevem poemas marcam pedaços de papel, não pela necessidade de contar alguma coisa, mas para se livrarem de um pedaço do corpo. conto a minha história em hospícios para me livrar de um pedaço do meu corpo. para andar apenas com um pedaço de memória sem corpo.
aqueles que chamarem esse livro de romance serão amaldiçoados pelo espírito de meu amigo Oscar o tocador de tambor e precisarão percorrer a vida com os seus agudos gritos quebradores de vidros e quebradores de vidraças-alma. como meu bom, e pequeno, amigo Oscar – aquele que se recusou a crescer, para tocar tambores – não tenho qualquer sentimento que me ajude a combater a crueldade. ou sou cruel ou tenho compaixão. e compaixão é apenas aquele sentimento que nutrimos por aqueles a quem permitimos morrer sem que desejemos.
posso ser chamado de K. ou de aquele que tem um corposcrito.

do nascimento

sinto desprezo pelos natimortos.
como se a morte fosse empecilho
de alguma coisa. sinto desprezo
pelos nativivos. como se a vida
fosse algo de que se orgulhar.

do nascimento dos meus olhos

os olhos tinham duas cores.
duas cores por lado.
ou quatro cores.
duas cores por lado.
os olhos eram como olhos de mosca.
ou oito cores.
duas cores por lado.
os olhos eram como tigres.
duas cores por rajada.
os olhos eram como gotas.
dois pingos por globo.

(3)

sempre me perguntei: onde esse maldito
lunático escreveria se suportasse o
quarenta e três (?) por certo, escreveria
sobre o corpo, talvez com algum pedaço
afiado de pedra. não deixa de ser
tolo escrever sobre o corpo. porque todos escrevemos
no corpo. é o primeiro alfabeto.
mas nas mãos de um lunático.
lúcido. é impossível dizer o estrago que
teria causado. impossível de dizer.
impossível de dizer.

(4)

ele é um homem rasgador
de febres. todos os lunáticos
diziam. e apenas os insanos entendem
de lucidez. ele ficara ao relento
até a garganta supurar e os pulmões
encherem de líqüido. apenas com quarenta
e uns graus de febre se colocava
a falar: e era lúcido: como era lúcido:
lúcido como demônio: lúcido como o
deserto. apenas com quarenta e dois
se colocava a escrever no escuro. em pedaços
de jornal. numa escuridão profunda.
com um pedaço de carvão. como era lúcido.
demais do que se pode suportar de lucidez: lúcido
como o demônio. lúcido como Deus.
todos os lunáticos diziam que se
chegasse a quarenta e três alguma verdade
intocável da vida seria tocada.
ao chegar a quarenta e três: morreu.
para o bem de todos nós.

(5)

eu mesmo tenho o corposcrito. como de fato
todos têm. mas eu sei. não seria capaz de ostentar
a lucidez na carne. apenas ostentaria a
lucidez nas orelhas. mas tenho medo de furá-las.
temo furá-las. pavor: furá-las.

(6)

rasgadores de febres
são mutiladores de si mesmos.
arrancam braços, olhos e dedos.
arrancam narizes, membros e nacos de carne.
perfuram tímpanos. perfuram tímpanos. perfuram tímpanos.
para a gargalhada de um pífano. de um flautista.
de um pífaro flautinista.
pelo prazer de escrever poesias em corredeiras.
a tinta bem próximo do papel. sem tocar.
e coices d’água. pedras. homens caídos.
a tinta bem próxima do papel sem tocar.
e curvas. e curvas. e curvas.
a tinta bem próxima do papel sem tocar.
de repente. e poema. e poema. e poema.

do sai e do fica

amontoado vocálico
a – e – i – o – u
amontoado consonantal
b – c – d – f – g – h – j – k. – l
não, k. não fica.
k. fica.
não, k. tem que sair.
se k. sair. eu saio.
s – a – í – d – a
- apenas um:
ai. um frio fenomenológico.
tudo bem: k. fica.
e k. ficou.

de quando se conhece o pai

ai tempo. ai tempo. ai tempo.
ai tempo. ai tempo.
ai tempo.
ai tempo. ai tempo.
ai tempo.
ai tempo. ai tempo.
ai tempo. mil vezes ai tempo.
por que me devora por dentro?
ai tempo.
ai tempo.
ai tempo.
por que me devora por dentro e devora
por fora? e me devora por dentro e devora
por fora. tudo. tudo. tudo o que tenho.
ai tempo.
por que devora por dentro e regurgita
tudo o que tenho?
não tenho nada e tudo que tenho é tempo.
só tenho tempo e tudo o que tenho é nada.
ai tempo. deixe que ele fique.
deixe que ele fique.
porque ele é tudo o que tenho e não tenho nada.

nele sempre amei tanto.
por todos os motivos de
estar perdido. ser perdido. no
perdido do encontro.
a ele amei tanto.
pelo ódio sem fim.
deixe que ele fique.
porque ele é tudo o que tenho e não tenho nada.

do falar e do calar

e eu racionalista pergunto:
onde calo?
na boca.

do eu e do tu

desfaço-te pedra por pedra
sobre o tampo de vidro.
desfaço-me pedra por pedra
sobre o tampo de vidro.
e de tanto cair quebramos o vidro.
e de tanto cair quebramos o vidro quebrado.
e de tanto cair quebramos o vidro quebrado do vidro.
e de tanto cair restamos pedra sobre pedra.
e vidro quebrado de vidro. e uma
coisa só. felizes.

dos acidentes

isso que parece sangue no meu dedo: é sangue.
isso que parece corte na minha carne: é corte.
isso que parece morte na minha alma: é morte.

das cordas

extensa corda no vazio e falta
vazio para o vazio. e falta corda
para o vazio. e falta corda para
todos nós. e se falta corda
para os nós, sobrou apenas o nó
da minha mão, feito em vazio, os
nós dos meus dedos. e se falta dedos
para os nós. e falta corda para
o vazio. dou nós nas cordas da
minha voz. e na voz. e na voz.
e na voz. resta sempre uma
gagueira. na voz se guarda
sempre uma gagueira. um
silêncio na voz.

des(aparece) e (des)aparece

do conhecimento

conheci uma casa de homens loucos.
conheci uma casa de homens.
conheci uma casa.
conheci.
e conhecendo.
conheci. homens. nus.
conheci. homens. nus. que. viam. antenas. invisíveis.
conheci. homens. nus. que. não. viam.
conheci. homens. de roupa. que. arrancavam. olhos.
conheci. homens. de roupa. que. arremessavam. olhos.
conheci. homens. nus. que. tapavam. olhos.
e tudo conheci ainda menino sem ponto ou vírgula muito
cedo ou cedo demais para conhecer e contei tudo e
todo o resto ficou muito tarde para se conhecer e restou
apenas o tempo para aprender a dizer.
e conheci uma casa.
de homens loucos. tamborete. de homens
loucos. tamborete. e. com eles. ficava bem.
tamborete. e conheci uma casa
de homens loucos que ficavam nus.
tamborete. nus. tamborete. alguns
arrancavam olhos. outros arrancavam
lua. tamborete. alguns lançavam
olhos. tamborete. outros. rua. tamborete.
mas não se me arrancaram os
olhos. os. meus. perdi.
depois. sozinho.

José Bechara em Portugal

José Bechara

Para acompanhar o vídeo do link acima da exposição de José Bechara em Portugal recomendo a leitura de meus dois escritos sobre o trabalho do artista:

Analítica do Preto e do Branco e suas cores

Da casa aos estilhaços de açúcar-imagem

Milhazes, Neto, Machado

Faço pequena menção a essas três edições do programa da TV BRASIL chamado Catálogo não por alguma razão especial, mas porque são edições que verei em algum momento. O que significa que não trago essas três edições, porque as entendo de alguma forma relacionadas. Não sei se existe relação ou se não. E também não pensei nessa relação. A única edição sobre a qual pensei um pouco mais, mas que também ainda não me pronuncio é a dedicada ao trabalho de Beatriz Milhazes, porque penso que o modo pelo qual ela usa a cor é exemplificativo de certa dinâmica social da cor. Assim, ficam essas três edições organizadas, para que a minha curiosidade seja a de mais alguém, e que o tempo nos beneficie para vê-las.

Beatriz Milhazes

Ernesto Neto

Ivens Machado

A festa da menina morta de Nachtergaele: cor, tempo e crença

Pode-se dizer que A festa da menina morta (2009, dir. Matheus Nachtergaele) possui uma infinidade de méritos dramatúrgicos, mas não me ocupo deles. Esta obra possui, sobretudo, méritos pictóricos. A experiência, em todas as suas nuances, é mostrada. Antes de tudo: “O mundo é real-ilusãoâ€. Esta sentença pode ser esoterizada muito facilmente, mas a direção-roteiro de Nachtergaele se desvia dessa possibilidade menor. Real-ilusão é mundo – a relação deve ser repetida infinitamente, como uma torneira que pinga. Ãgua ardente pode acrescentar intensidade ao mundo que goteja entre realidade e ilusão.

E se a princípio distinguimos uma coisa da outra – o real da ilusão, a pinga da sobriedade e o gotejamento do silêncio –, se repetirmos a seqüência teremos um mundo indiscernível no que concerne à realidade e à ilusão. Não sei como esse problema foi resolvido no roteiro, mas uma das formas seria acrescentando uma ponte entre real e ilusão. Ficaria assim: real_ilusão, em que “_†significa mundo.

para ler o artigo, clique aqui.

minusc’ulisses

Apesar de toda a falta de necessidade é de Joyce que lembro quando penso no escrever. Ao tomar conhecimento dessa data chamada de Bloomsday fiquei encantado a ponto de escrever um poema. Porque intimamente há muito de Ulisses em mim. Esse poema saiu daqui para ir a um livro que ainda não publiquei, um pouco porque ficou numeroso em páginas. Daí, estou decidido a publicá-lo novamente para fazer a hommage deste escritor que me atormenta. Não publiquei ontem não por esquecimento, mas porque não confio em nenhum dia que se repita uma vez por ano. Ainda mais, mais não confio em um dia que sofre dupla martelada todo ano. Aniversário, é o mesmo dia todo ano, além de ser aniversário. Dupla martelada. Então, por revolta contra a dupla martelada faço minha hommage hoje.

minusc’ulisses

algumas folhas têm nervuras
outras não.
algumas pessoas têm nervuras
outras não.
alguns sonhos têm nervuras
outros não.
alguns poemas têm nervuras
outros não.
algumas paixões têm nervuras
outras não.
algumas sandices têm nervuras.
sempre.

alguns instantes têm certezas
outros não.
algumas idéias têm certezas
outras não.
alguns cigarros têm certezas
outros não.
algumas canetas têm certezas
outras não.
algumas páginas têm certezas
outras não.
alguns versos têm certezas
outros não.
alguns solfejos têm certezas.
sempre.

algumas mulheres têm pequena
outras não.
algumas mulheres têm azul
outras não.
algumas mulheres nos fazem esperar
outras não.
algumas mulheres são de sonho
outras não.
algumas mulheres são de dia
outras não.
algumas mulheres têm lindas mãos
outras não.
algumas mulheres são você
outras não.

Yo-Yo Ma e meu vazio

herdo geneticamente o vazio.
o vazio me tem em gênese.
não sabia do vazio que tenho.
mas lembrei do vazio que sou.
não tenho um vazio espontâneo. tenho um vazio em arco.
um Yo-Yo me lembra deste vazio plano.
ai Yo-Yo que me joga no vazio da memória.
ai Yo-Yo. ai Yo-Yo.

herdo uma surpresa adulterina.
ai Yo-Yo. herdo um revólver ensandecido.
herdo um gatilho meio solto. ai Yo-Yo.
uma prisão um pouco fria. ai Yo-Yo.
maldito Yo-Yo. na memória me esvazia.
me fez vazio em arco.
me fez vazio em grito.

este vazio. vale. não vale a
pena. este. vazio. não toca o
arco a pena. este vazio. vale.
não vale a pena. este vazio não
toca o fio! não toca o arco.
vale. não. vale. a. pena.
o meu vazio me vale.

poema de amor à marca

pode-se pensar que existe algo que não seja escritura. mas isso seria dizer que existe algo que não é imagem. então tento dizer para os sem imagens que tudo o que existe é traço sobre traço e sobre traço. sobreposição de traços. estes traços são traços imagens. estas imagens são escritura. então tento dizer para os sem traço que tudo o que existe é marca. tudo o que existe é sinal. e este sinal que é marca. este sinal que é traço. nada mais é do que escritura. nada mais é do que uma imagem. nada mais do que um ponto. então, tento dizer para os sem ponto. que basta uma impressão de experiência para se ter escritura, imagem, traço, marca, sinal e mundo. basta uma impressão para se ter mundo.

Da Guerra e da Morte

A civilização produz ilusões. Essas podem ser mantidas a despeito de eventos traumáticos como as guerras, mas podem, igualmente, sofrer desmantelamento. Existe ilusão com ou sem guerra: a natureza da ilusão é diferente em função da crença a que os eventos históricos nos forçam. Da mesma forma, existe ilusão com ou sem civilização. Contudo, a civilização produz alguns modos de ilusão que se mantidas desmantelam as bases da civilização. A civilização conta com a ilusão da passividade, mas se não é capaz de interrogar as causas profundas da violência, não é capaz de manter a paz. Eventos históricos são produtores de crenças, muito embora também possam ser produzidos por crenças. As ilusões também podem ser produzidas pela história e podem fomentar modificações. Para ler, clique aqui.

verso à nóvoa

os outros me infernam.
inverno por inverno.
outon’almas (des)apareço. des(apareço).

de repente

não tenho nada. estou de repente.
certo que da cor não há mais que corte.
parece que só o de repente importa.
então, que importe.
porque de resto. de repente. apenas me importa o repente.
ou não me importa nada. ou me perca a letra.
de_repente_fica_a_ponte_e_morte.

poemas de amor

um poema de amor (1)

existem aqueles que
buscam. o que? que
buscam. o que? em todo canto
do mundo um poema de amor.

outro poema de amor (2)

existem aqueles que
perdem. o que? que
perdem. o que? com todo amor
do mundo um poema no canto.

terceiro poema de amor ou mais (3)

existem aqueles que. existem
aqueles que. existem aqueles
que. por todo amor do mundo
se perdem no canto do poema.

diálogos dos mortos

diálogos dos mortos

estou tão cansado.
cansado de quê?
da vida.
e como cansado da vida?
de viver.
e por que não morre?
porque não posso.
mas por que não?
porque não terminei.
de quê?
de viver.
e quando termina?
não sei. termina quando termina.
mas quando termina?
quando essa voz na minha cabeça se calar.
mas que voz?
você.
quer que eu me cale?
ainda não. ainda não terminei.

mulher com a garganta cortada

mulher com a garganta cortada.
Giacometti, 1932

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